26 de outubro de 2026
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Lula vence o neofascismo e é eleito presidente pela quarta vez, como nunca antes na História do Brasil

A dois dias de completar 81 anos, Lula escreve mais um capítulo de uma trajetória que se confunde com a própria história da redemocratização brasileira.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito presidente da República pela quarta vez neste domingo (25), em uma vitória histórica sobre Flávio Bolsonaro (PL), herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado. Com 78,08% das urnas apuradas, Lula tem 51,21% dos votos válidos, contra 48,79% do adversário.

A porcentagem e as projeções de todos os institutos mostram que Lula conquistou mais um mandato no Palácio do Planalto, tornando-se o primeiro brasileiro a vencer quatro eleições presidenciais pelo voto popular.

Aos 80 anos, a dois dias de completar 81, Lula escreve mais um capítulo de uma trajetória que se confunde com a própria história da redemocratização brasileira. O menino que deixou o sertão pernambucano em um pau de arara, enfrentou a fome, a pobreza e o trabalho infantil, tornou-se líder sindical, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores e chegou ao comando da maior economia da América Latina pela quarta vez.

O resultado representa ainda uma nova derrota do projeto de poder da família Bolsonaro, que tentou se perpetuar no comando do país mesmo após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, por meio de uma trama golpista que culminou nos ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.

Quatro anos depois de derrotar o pai, Lula venceu o filho nas urnas, frustrando a tentativa de recolocar no Palácio do Planalto um projeto político de extrema direita que combina autoritarismo, fundamentalismo religioso e uma agenda econômica ultraliberal.

Brasil contra tudo e contra todos

Ao contrário da narrativa antissistema cultivada pelo bolsonarismo, Flávio Bolsonaro chegou à disputa presidencial como representante de uma ampla articulação de forças políticas e econômicas interessadas em derrotar Lula e recolocar no centro do poder uma agenda de privatizações, desregulamentação e redução do papel do Estado.

Em torno do herdeiro político de Jair Bolsonaro convergiram setores da Faria Lima, representantes do mercado financeiro, segmentos da mídia liberal, parte do Centrão e grupos econômicos internacionais identificados com o receituário ultraliberal.

A articulação encontrou respaldo político no movimento internacional de extrema direita, especialmente no trumpismo, que transformou a ofensiva contra governos progressistas em parte de sua estratégia de influência sobre a América Latina.

Lula, por sua vez, buscou transformar a eleição em um confronto entre dois projetos de país: de um lado, a defesa da democracia, da soberania nacional e das políticas de inclusão social; de outro, o retorno de uma agenda associada ao desmonte de direitos e ao autoritarismo bolsonarista.

Do sertão ao Planalto

Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no agreste de Pernambuco, Luiz Inácio Lula da Silva é o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindu.

Ainda criança, atravessou o país com a mãe e os irmãos em um pau de arara, fugindo da miséria do Nordeste em direção a São Paulo. Foi engraxate, vendedor ambulante e operário antes de se formar torneiro mecânico e encontrar no movimento sindical o caminho que mudaria sua vida — e a história do Brasil.

Na década de 1970, em plena ditadura militar, Lula emergiu como uma das principais lideranças dos metalúrgicos do ABC paulista. À frente de greves que desafiaram o regime, foi preso e transformou-se em símbolo da resistência dos trabalhadores.

Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, construído a partir da articulação entre sindicalistas, movimentos populares, intelectuais e setores progressistas da Igreja Católica.

Seis anos depois, foi eleito deputado federal constituinte e participou da Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração da Constituição de 1988.

A primeira tentativa de chegar à Presidência ocorreu em 1989, quando perdeu para Fernando Collor de Mello no segundo turno da primeira eleição presidencial direta após a ditadura.

Vieram novas derrotas para Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998. Lula, no entanto, persistiu.

Em 2002, após três tentativas frustradas, o ex-operário venceu José Serra e se tornou o primeiro trabalhador de origem popular a chegar à Presidência da República pelo voto direto.

Reeleito em 2006, deixou o Planalto em 2010 com elevados índices de aprovação, após dois mandatos marcados pela expansão das políticas sociais, valorização do salário mínimo, ampliação do acesso à universidade e retirada de milhões de brasileiros da pobreza.

Programas como o Bolsa Família, o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida se tornaram marcas de seus governos, que também ampliaram a presença diplomática brasileira e fortaleceram as relações com países do Sul Global.

Da prisão à volta por cima

A trajetória de Lula sofreu uma ruptura em 2018, quando foi preso após condenação no âmbito da Operação Lava Jato, comandada pelo então juiz Sergio Moro.

Favorito nas pesquisas para a eleição daquele ano, o petista foi impedido de disputar a Presidência, abrindo caminho para uma eleição vencida por Jair Bolsonaro.

Lula permaneceu 580 dias preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Durante esse período, tornou-se o centro de uma campanha nacional e internacional pela sua liberdade, enquanto revelações sobre a atuação de Moro e dos procuradores da Lava Jato colocavam sob questionamento a imparcialidade dos processos.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações impostas pela Justiça Federal de Curitiba e reconheceu a parcialidade de Moro no processo do tríplex do Guarujá, devolvendo a Lula seus direitos políticos.

A volta às urnas ocorreu em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro em uma das eleições mais polarizadas da história brasileira.

A vitória, no entanto, não encerrou a ofensiva bolsonarista contra a democracia.

Inconformados com o resultado, aliados e apoiadores do então presidente participaram de uma escalada golpista que culminou na invasão e depredação do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto em 8 de janeiro de 2023.

A investigação sobre a tentativa de ruptura institucional levou à condenação de Jair Bolsonaro pelo STF, tornando ainda mais simbólica a disputa de 2026 entre Lula e o filho do ex-presidente.

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