
Avenida Brasil 2: Globo coloca miliciano em sequência da trama que estreia no início do governo Lula 4
Revista Fórum – Novela que retratou a ascensão da classe média durante o governo Dilma Rousseff voltará ao ar no quarto mandato de Lula, com Carminha transformada em benfeitora social e um miliciano disputando poder no bairro do Divino.
Quinze anos depois de transformar a ascensão social das classes populares em um fenômeno de audiência, a Globo prepara a volta de Avenida Brasil, novela de João Emanuel Carneiro que marcou o primeiro governo de Dilma Rousseff (PT), em 2012. A sequência, prevista para estrear em janeiro de 2027, terá uma novidade que aproxima a ficção de um dos cenário recente no Brasil, retratado nas eleições presidenciais por Flávio Bolsonaro (PL): a presença de um miliciano na disputa pelo poder em uma comunidade popular do Rio de Janeiro.
O personagem será Renan Vitória, interpretado por Thomás Aquino – um dos protagonistas de Bacurau -, apresentado inicialmente pela emissora como uma liderança em ascensão no fictício bairro do Divino. Renan será um miliciano influente na região e entrará em conflito com Carminha, personagem de Adriana Esteves que retorna à história com uma imagem completamente diferente daquela que a consagrou como uma das maiores vilãs da teledramaturgia brasileira.
Depois de cumprir pena na prisão, Carminha reaparecerá como uma espécie de benfeitora social, admirada pelos moradores e celebrada pela imprensa por ajudar famílias em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas afetadas pela desativação do lixão.
A trama colocará em discussão a disputa por influência e prestígio dentro da comunidade, tendo como pano de fundo a assistência social, a construção de reputações públicas e a presença do crime organizado no controle de territórios populares.
A escolha ganha uma dimensão política particular pelo momento em que a novela chegará à televisão. A estreia ocorrerá no início do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pretende concentrar a nova gestão em ações internas, especialmente na área social, após uma campanha presidencial marcada pela polarização política.
Com a trama, a Globo terá novamente a oportunidade de retratar, a seu modo, as transformações e contradições da sociedade brasileira em um período de governo petista.
A ascensão social de Lula e Dilma na primeira Avenida Brasil
Quando Avenida Brasil estreou, em março de 2012, Dilma Rousseff estava no segundo ano de seu primeiro mandato e o Brasil ainda vivia os efeitos da expansão do consumo e da mobilidade social registrados durante os governos Lula.
Milhões de brasileiros haviam ampliado o acesso a bens de consumo, crédito, serviços e oportunidades econômicas. A chamada classe C passou a ocupar um espaço cada vez maior no mercado consumidor e, consequentemente, nas estratégias comerciais da televisão.
Foi nesse ambiente que a Globo colocou no centro de sua principal novela uma família suburbana enriquecida.
Tufão, personagem de Murilo Benício, era um ex-jogador de futebol que havia acumulado fortuna, mas continuava vivendo com a família no Divino, cercado por hábitos, relações e referências culturais populares.
A riqueza deixava de ser representada exclusivamente pelos tradicionais personagens da elite carioca. O subúrbio, com suas festas, seu futebol, sua linguagem e seus conflitos familiares, assumia o protagonismo da narrativa.
A novela não criou a ascensão social brasileira, mas transformou esse fenômeno em espetáculo televisivo, incorporando ao horário nobre uma parcela da população que havia conquistado maior relevância econômica.
A força de Avenida Brasil foi tamanha que chegou a interferir na própria agenda política. Em 19 de outubro de 2012, dia da exibição do último capítulo, um compromisso de campanha de Dilma Rousseff com Fernando Haddad, então candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, foi adiado para não concorrer com a novela.
Naquele mesmo período, o Supremo Tribunal Federal julgava o “mensalão”, processo que ocupava diariamente o noticiário político e recebia ampla cobertura da Globo.
A emissora apresentava, assim, duas narrativas simultâneas: na dramaturgia, o Brasil da ascensão popular; no jornalismo, o processo judicial para associar o PT à corrupção.
Do Brasil da classe C ao país das milícias
A continuação de Avenida Brasil preservará parte daquele universo de 2012, mas acrescentará novos conflitos. Tufão terá ampliado sua fortuna e se consolidado como empresário bem-sucedido. A família continuará unida, até que o reaparecimento de Carminha volte a ameaçar sua estabilidade.
A antiga vilã, entretanto, não retornará simplesmente para repetir os golpes da primeira novela. Sua nova identidade será construída em torno de ações sociais e de uma imagem pública de regeneração. A personagem ganhará reconhecimento dos moradores e espaço positivo na imprensa, embora o roteiro mantenha a dúvida sobre a sinceridade de sua transformação.
É nesse ambiente que surgirá Renan Vitória. Interpretado por Thomás Aquino, o personagem será apresentado como uma liderança comunitária em ascensão. Reportagens de bastidores apontam que ele exercerá influência sobre o Divino por meio de uma milícia.
A introdução do personagem permite à dramaturgia abordar uma realidade que ganhou enorme relevância no Rio de Janeiro nas últimas décadas: a expansão de grupos armados que controlam territórios, exploram atividades econômicas e interferem na vida cotidiana de comunidades.
Ao aproximar a figura de uma benfeitora social de um personagem ligado à milícia, a novela poderá explorar as fronteiras entre assistência à população, influência comunitária e exercício do poder.
Ainda não foram divulgados detalhes suficientes para estabelecer como será a relação entre Carminha e Renan, nem se a trama abordará vínculos entre milícias e agentes políticos.
A Globo e o Brasil do quarto mandato de Lula
A nova Avenida Brasil chegará às telas em um cenário bastante diferente daquele de 2012. Se a primeira novela foi exibida durante um período em que a expansão do consumo popular era uma das principais marcas da transformação econômica brasileira, a sequência encontrará um país que atravessou recessão, pandemia, mudanças no mercado de trabalho, crescimento das plataformas digitais e intensa polarização política.
O quarto mandato de Lula também terá como um de seus desafios a recuperação e ampliação de políticas sociais, com maior atenção à realidade interna do país.
Nesse contexto, a escolha de personagens envolvidos com assistência social, disputas comunitárias e controle territorial poderá estabelecer um diálogo com questões que estarão presentes no debate público durante o novo governo.
A experiência de 2012 demonstra que uma novela de grande repercussão pode participar da construção do imaginário social de seu tempo, influenciando conversas públicas e dando visibilidade a determinadas interpretações da realidade.
Quinze anos depois, a emissora voltará ao mesmo bairro fictício, agora com uma história que envolve filantropia, prestígio midiático e poder armado.
Se a primeira Avenida Brasil ajudou a popularizar a imagem de um país em ascensão econômica, a segunda poderá colocar em evidência as contradições sociais e territoriais que persistem mesmo diante da ampliação de políticas públicas.
A diferença é que, em 2027, a Globo já não terá a mesma concentração de audiência de 2012. A novela disputará atenção com plataformas de streaming, influenciadores e redes sociais, onde seus personagens e conflitos também poderão adquirir interpretações políticas que escapam ao controle dos autores.
O alcance e o significado dessa nova narrativa dependerão do desenvolvimento do roteiro e da reação do público.
Por enquanto, uma coisa está clara: o Divino de Avenida Brasil continuará sendo um espaço de disputa por dinheiro, influência e poder. A novidade é que, desta vez, uma milícia fará parte desse universo.
