17 de julho de 2024
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25 de abril de 1974, o dia em que os militares deram um golpe para entregar a democracia ao povo português

À 1h30 da madrugada de 25 de abril de 1974, na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, o capitão Salgueiro Maia reúne as suas tropas e relata o golpe militar que andava há meses a ser preparado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) e que ia ter lugar essa manhã. Não sabe como abordar os seus homens e o faz com humor.

“Há várias modalidades de organização dos estados: há o estado socialista, o estado comunista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Eu proponho acabar com o estado a que isto chegou. Vamos para Lisboa acabar com isto. Quem quiser vir comigo vai formar lá fora, quem não quiser fica aqui”. Todos foram.

O “estado a que isto chegou” era uma ditadura de 48 anos que tinha submergido a população na miséria e no obscurantismo, com um regime repressivo, sem liberdade de expressão e que condenava uma geração de homens a uma guerra colonial há muito perdida, mas que o regime recusava acabar.

O ditador António de Oliveira Salazar já tinha sido substituído por Marcelo Caetano em 1968, mas a “primavera marcelista” – como ficou conhecido este período – que tinha chegado cheia de promessas de renovação, demorava a acontecer. E um conjunto de capitães do exército, tinha decidido que era hora de mudar.

“O difícil foi escolher quem podia ir na coluna militar, porque não podiam ir todos”, lembra o coronel Carlos Maia Loureiro, que era naquela altura capitão. A coluna, que teria o papel principal no golpe militar, saiu de Santarém com 160 homens, 10 viaturas blindadas, 12 viaturas de transporte, 2 ambulâncias e um jipe. Às 5h50 da manhã, a coluna chega ao Terreiro do Paço, na baixa de Lisboa. Se passariam quase seis horas de tensão.

“O momento mais crítico foi a chegada ao Terreiro do Paço de uma força do regime comandada pelo brigadeiro Junqueira Reis, que dá ordem a um tanque M47 blindado para disparar sobre nós. O capitão Salgueiro Maia mete uma granada no bolso e sai em direção ao tanque para dialogar… eu fui atrás dele e ainda hoje não sei porquê”, lembra Maia Loureiro.

Naquele momento, Salgueiro Maia – como contaria o próprio anos mais tarde -, está disposto a detonar a granada e tornar-se um mártir, pensando que assim talvez consiguiria a vitória do golpe. Mas não é preciso. O oficial que comandava o blindado se recusou a disparar e as forças do regime se renderam.

A missão no Terreiro do Paço está cumprida e a coluna militar volta a se formar para ir rumo ao Quartel do Carmo, onde o governo de Marcelo Caetano se tinha refugiado.

Militares em rua de Portugal na Revolução dos Cravos
Legenda da foto, Soldados portugueses montam guarda no dia 28 de abril de 1974, em Lisboa, perto do quartel-general da Guarda Nacional Republicana

“No caminho começamos a ver uma multidão pelas ruas. Gente de todas as idades, em festa, subiam nas viaturas, vinham nos abraçar, nos agradecer… ainda hoje me emociono quando penso nisso”, recorda o coronel.

Foi nesse percurso que começaram a aparecer os primeiros cravos vermelhos, oferecidos por Celeste Caeiro, uma mulher apanhada de surpresa pela revolução. Os militares recebiam as flores e as colocavam no cano das espingardas, dando inicio, sem saberem, à iconografia da Revolução dos Cravos.

Em menos de cinco horas, o governo se rendeu: Marcelo Caetano entregou o poder ao general Spínola e saiu do quartel escoltado pelos militares do MFA. O golpe militar estava concluído.

Meses de conspiração

O golpe que se materializou naquela quinta-feira, 25 de abril de 1974, estava sendo planejado há alguns meses.

“As primeiras reuniões começaram por reivindicações de ordem corporativista, por causa de alterações legislativas promovidas por Marcelo Caetano”, explica Luís Nuno Rodrigues, professor do departamento de História do ISCTE.

“Mas, na verdade, existiam motivações mais profundas e o MFA rapidamente adquiriu uma dimensão mais política”, acrescenta ele.

Além das modificações legislativas, nas reuniões começa a se falar sobre a guerra colonial, um conflito de 13 anos para o qual parecia não haver solução à vista.

“Havia militares que defendiam uma solução política para a guerra e isso começa a ser abordado devagar. E, depois, havia a questão do prestigio das Forças Armadas, porque a população não gostava de nós”, conta o tenente-coronel Vasco Lourenço, um dos defensores do golpe militar.

“A certa altura o caminho fica claro. A população olhava para nós como o suporte de um regime repressivo que impunha a guerra e a ditadura. Se queríamos recuperar o prestígio tínhamos que abandonar essa imagem. E isso só se conseguia com um golpe de Estado: acabar com a ditadura, dar uma solução política à guerra e criar condições para a democracia e a liberdade em Portugal”, explica Lourenço.

Esta começa a ser a posição majoritária no círculo de jovens oficiais, sobretudo entre os capitães.

“São oficiais intermediários, com muitos anos de guerra colonial, que conhecem muito bem a situação na África e que decidem acabar com o regime para democratizar o país”, diz Francisco Ruivo, pesquisador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

“A própria questão geracional é importante: são homens de 30, 40 anos, uma geração muito diferente da cúpula das Forças Armadas, que eram pessoas mais velhas e mais conservadoras”.

Soldados colocaram cravos nos canos de suas armas no dia 25 de abril de 1974
Legenda da foto, Soldados colocaram cravos nos canos de suas armas no dia 25 de abril de 1974

Essas diferenças ficam evidentes em 14 de Março de 1974, quando, numa espécie de prova de fidelidade, generais dos três setores da Forças Armadas comparecem à cerimônia de homenagem ao líder do governo, Marcelo Caetano.

“Nesse episódio, que ficou conhecido como “a brigada do reumático”, os generais ali presentes garantem que as FA não tinham política própria e estavam alinhadas com o chefe de Governo”, conta Luís Nuno Rodrigues.

Os únicos generais que não assistiram ao encontro foram Francisco da Costa Gomes e António de Spínola, chefe e vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, que seriam depois exonerados dos respectivos cargos. Os dois tiveram papéis protagonistas na Revolução de Abril.

A guerra colonial

Ao contrário do que os generais garantiram a Caetano, o Exército estava, sim, fazendo política. De tal forma, que o resultado produzido pelo MFA não é só a decisão de fazer um golpe de Estado, mas sim todo um programa político.

“Era um programa que extinguia o antigo regime e todas as suas instituições, e que se baseava nos famosos “Três Ds”: democratizar, descolonizar e desenvolver”, explica a historiadora Irene Flunser Pimentel.

“A curto prazo seriam convocadas eleições para uma Assembleia Constituinte que elaboraria a nova Constituição do país e reconhecia-se que a solução das guerras coloniais tinha de ser política”, completa Luís Nuno Rodrigues

A politização das FA, feita, na sua maioria, durante a guerra do Ultramar, foi fundamental.

“Num determinado momento, como começam a escassear jovens que quisessem enveredar pela carreira militar, muitos estudantes foram recrutados compulsoriamente para ir para África, como soldados ou oficiais milicianos. Eram jovens muito influenciados pelos movimentos de Maio de 68, politizados nas universidades e que levavam para a guerra livros, canções de protesto de Zeca Afonso e José Mário Branco [dois cantores censurados pelo regime] e começam a contagiar os militares de carreira”, continua a historiadora.

“Quando estes homens pensaram no golpe de Estado, e sobretudo no programa, o objetivo era sempre no sentido de derrubar a ditadura e democratizar o país, com vista à descolonização, e entregar o poder aos civis de uma forma democrática.”

Foi na guerra colonial, longe da propaganda com que o regime inundava o país, que muitos dos militares perceberam que tipo de conflito existia naqueles territórios.

“A guerra nos ajudou a abrir os olhos para a cegueira do governo, para a situação de ditadura aqui, para a legitimidade da luta do nosso inimigo. Eles é que estavam certos, que lutavam pela sua independência, pela sua autonomia. Nós estávamos do lado errado”, diz o tenente-coronel Vasco Lourenço.

“Eu fui para a guerra convencido de que defendia uma parcela do território nacional, a minha pátria. Mas depois, lá, percebi que tínhamos perdido no plano político e que já só fazíamos a guerra pela guerra e que as FA estavam a ser usadas pelo regime para obter uma saída honrosa”, completa o coronel Maia Loureiro.

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