7 de setembro de 2026
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O mito de que a Independência do Brasil foi pacífica

Ao contrário do imaginário consolidado, houve derramamento de sangue e confrontos em várias partes do território brasileiro, do Pará à província Cisplatina, atestam historiadores contemporâneos.

Durante um ano e quatro meses, brasileiros interessados em autonomia e portugueses que queriam manter o controle da colônia se engalfinharam em batalhas onde hoje é o estado da Bahia. Foram pelo menos 150 mortes em diversos confrontos − o mais famoso deles, ocorrido em 8 de novembro de 1822, ficou conhecido como Batalha de Pirajá.

O episódio chamado de Independência do Brasil na Bahia é um retrato importante − e não único − que atesta como, contrariando o imaginário nacional, o processo de emancipação política do Brasil não ocorreu sem derramamento de sangue.

Outro episódio marcante foi a chamada Batalha do Jenipapo, ocorrida em 13 de março de 1823 às margens do rio homônimo na Vila de Campo Maior, atual estado do Piauí. Ali, moradores locais enfrentaram tropas que tentavam manter a região sob o comando da corte portuguesa.Como saldo, foram cerca de 220 mortos, 60 feridos e 542 homens feito prisioneiros. “Em números, foi a grande batalha do período da Independência, aponta o historiador Marcelo Cheche Galves, professor na Universidade Estadual do Maranhão.

“O processo de independência do Brasil não foi pacífico, e nem a violência foi ocasional”, diz o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista, ressaltando que a imagem de que a conquista da emancipação política brasileira foi feita de modo pacífico foi uma construção histórica.a

Construção da narrativa pacífica

“O primeiro imaginário a ser questionado é precisamente este: o do processo binário, com ou sem sangue. Sempre houve sangue. Os séculos 18 e 19 foram movidos a constantes guerras, revoluções e conflitos localizados ou não. Estas nunca foram imaginárias, mas concretas, com milhares de mortos e feridos, destruição, apropriação de territórios e espoliação econômica sistemáticas”, contextualiza Martinez.

Quadro de Antônio Parreiras O Primeiro Passo para a Independência da Bahia
Pintura de Antônio Parreiras intitulada “O Primeiro Passo para a Independência da Bahia”

Segundo o historiador, no caso brasileiro, “a afirmação do processo pacífico ou relativamente pacífico foi uma construção enganadora”. Esta serviu para “justificar e legitimar a permanência da Casa de Bragança [a família real que seguiu no comando depois da Independência], a persistência da monarquia e dos acordos políticos que lhe deram sustentação política, econômica, militar e ideológica”.

Em outras palavras, havia um interesse do poder em passar uma mensagem de que a Independência havia ocorrido, mas tudo estava bem, os ânimos estavam controlados, e a vida podia seguir como antes.

“Todo o período da regência de Dom Pedro 1ºfoi marcado por um gigantesco esforço político, material operacional e financeiro para eventuais confrontos armados, considerados possibilidades reais e decisivas”, ressalta Martinez.

Não à toa, o próprio príncipe feito imperador dirigiu-se aos paulistas chamando-os de “leais”. Isso escondia uma “expectativa política apreensiva e angustiante”: o risco de uma luta armada na província que ganhava importância, analisa o historiador.

“A ocorrência de confrontos armados sempre esteve presente no horizonte cotidiano, real e concreto do debate e das ações políticas dos grupos sociais e dos indivíduos que viveram o processo que resultou no desmembramento político do Brasil do Reino Unido de Portugal”, pontua o professor.

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