Como Janones montou um exército digital na campanha de Lula — e qual espaço pode ter no novo governo
BBC – Antes mesmo de a apuração confirmar o vencedor, André Janones já havia distribuído uma tarefa para depois da eleição.
“Última missão”, escreveu no Exército do Lula, o canal que criou no WhatsApp para mobilizar apoiadores pela reeleição do presidente: quando a vitória se confirmasse, os seguidores deveriam recuperar as publicações em que ele havia previsto o resultado e o tamanho da diferença.
A mensagem resumia duas marcas da atuação do deputado federal da Rede de Minas Gerais: mobilizar os apoiadores de Lula e reivindicar reconhecimento pelo próprio papel na campanha.
No WhatsApp, seu canal chegou a cerca de 10,8 milhões de seguidores, convocados a compartilhar vídeos, promover hashtags e atrair mais participantes.
Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro, essa disputa por reconhecimento ganha outra dimensão: quanto espaço Janones terá no próximo governo?
Com 99,95% das seções totalizadas, Lula tinha 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do adversário, segundo os dados do TSE.
Depois da confirmação do resultado, Janones cobrou reconhecimento. “Onde tá sendo formada a fila para os que duvidaram de mim pedirem desculpas?”, escreveu no X.
No discurso de vitória, na noite de domingo (25), Lula chamou Janones para seu lado e agradeceu a atuação do deputado na campanha. Referiu-se a ele como “nosso general” e destacou seu papel de “levantar todo dia a moral da nossa tropa”.
O presidente também associou o resultado à maneira como pretende conduzir o próximo mandato. Prometeu ampliar a participação popular nas decisões e afirmou que “a comunicação digital vai ganhar muito espaço”.
O Exército do Lula ganhou escala depois do primeiro turno.
No canal, os administradores publicam textos,
áudios, vídeos e links para os seguidores, que podem reagir e encaminhar o conteúdo. Janones usava esse espaço para orientar ações em outras plataformas e nas conversas com conhecidos: compartilhar um vídeo no Instagram, promover uma hashtag no X ou convidar contatos para aderir à mobilização.
Nas mensagens, havia modelos prontos de convite para amigos e grupos. Cada convocação oferecia aos seguidores uma tarefa concreta para ampliar a presença de Lula nas redes.
O crescimento também apareceu no perfil pessoal de Janones. Segundo o SocialBlade, site que acompanha estatísticas de redes sociais, seu Instagram passou de 2.781.320 seguidores no primeiro turno para 6.876.228, em consulta feita em 23 de outubro. Foram 4.094.908 seguidores a mais, alta de 147,2%.
Do auxílio emergencial às missões digitais
O deputado, que tem 42 anos, construiu sua audiência falando de assuntos de impacto imediato na vida dos seguidores.
Ganhou projeção na greve dos caminhoneiros de 2018 e ampliou a presença nas redes com a defesa do auxílio emergencial na pandemia. Em 2022, depois de retirar sua candidatura presidencial e apoiar Lula, tornou-se um dos personagens da ofensiva digital contra Jair Bolsonaro.
Em 2022, Janones já recebia elogios de aliados pela atuação nas redes. À revista piauí, o marqueteiro Sidônio Palmeira, que chefia a Secretaria de Comunicação Social (Secom), destacou sua rapidez para reagir e mudar o foco do debate. À GZH, plataforma digital do conglomerado gaúcho de mídia Grupo RBS, o deputado federal Paulo Pimenta (PT) defendeu a diversidade de estilos na campanha e disse que Janones “atinge um público diferente”.
O reconhecimento ultrapassou o campo dos aliados de Lula.
Em publicação no X em 23 de outubro, antes do segundo turno, Renan Santos, fundador do MBL e adversário de Lula, colocou Janones no mesmo patamar de comunicação de Cleitinho e Nikolas Ferreira e previu que os três mineiros influenciariam os rumos do país.
“O que ele fez na campanha do Lula será estudado nos próximos anos”, escreveu.
Renan retomava uma publicação própria de janeiro de 2021, na qual já exaltava o potencial político de Janones e apresentava tanto Bolsonaro quanto Lula como ultrapassados.
Os elogios conviviam com resistência dentro da esquerda. Em 2022, a Folha de S.Paulo relatou o receio de petistas de que o estilo de Janones afetasse a imagem moderada que pretendiam associar a Lula. A mesma reportagem registrou o apelido “Carlucho do bem”, atribuído a um aliado, em referência ao senador eleito Carlos Bolsonaro, conhecido por sua atuação nas redes sociais durante o governo do pai, Jair Bolsonaro.

A controvérsia sobre o método atravessou o governo Lula. Ao comentar seu livro, Janonismo Cultural: O uso das redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil (Civilização Brasileira), em 2023, Janones sustentou que usava blefes, não notícias falsas. A Agência Lupa — de checagem de fatos — já havia documentado publicações desinformativas do deputado na campanha.
Entre o primeiro e o segundo turno de 2026, a campanha de Flávio levou o canal Exército do Lula ao TSE e o acusou de divulgar mentiras. Janones negou a disseminação de fake news. Um relatório técnico não localizou, nas publicações de 2 a 11 de outubro, as afirmações examinadas nos autos.
O alcance nacional contrasta com o desempenho de Janones na disputa por uma vaga na Câmara. Ele foi reeleito deputado federal por Minas Gerais com 78.780 votos em 2026, contra 238.967 em 2022 — queda de 67%, segundo o TSE. A expansão acelerada do canal veio depois do primeiro turno, quando a eleição para a Câmara já estava encerrada.
Da influência nas redes à influência no governo

Na madrugada de sábado (24), em uma live com Janones depois do debate da Globo, o presidente agradeceu a mobilização e disse ao deputado: “Você vai subir de patente”. Chamou-o ainda de “general vitorioso”.
Para o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, a vitória pode aproximar a trajetória de Janones do governo, sobretudo na comunicação.
“Se o Lula ganhar, eu acho que ele se torna alguém importante dentro do governo, até para manter essa comunicação nas redes sociais”, afirmou à BBC News Brasil, antes do segundo turno.
Ao comparar Janones a Pablo Marçal, Consentino vê proximidade nos mecanismos de confronto e mobilização nas redes, apesar da diferença ideológica.
Marçal, influenciador digital e um dos principais nomes engajados na campanha digital de Flávio Bolsonaro, é conhecido por seu estilo agressivo, provocativo e confrontador no ambiente digital.
A distinção, na avaliação de Consentino, está na trajetória: Marçal teria levado para a política métodos que já utilizava antes, enquanto Janones os teria desenvolvido na própria atuação política. “Do ponto de vista da mecânica, me parece muito próximo”, afirmou.
A cientista política e coordenadora do Curso de Graduação em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Tathiana Chicarino, reconhece que Janones e Marçal compreendem o funcionamento das redes e o uso de recursos emocionais, mas considera essa uma semelhança instrumental, que não equipara o conteúdo nem os limites éticos de suas atuações.
Para Consentino, o avanço desse tipo de comunicação também pode alterar o espaço dos profissionais de campanha. Ele sugere que o marketing político tradicional, associado a nomes como Duda Mendonça e João Santana, esteja dando lugar a estrategistas de redes sociais.
Ao mencionar Sidônio Palmeira, questiona se essa comunicação tradicional teve o efeito que Lula e seu entorno esperavam. É nessa possível mudança de peso entre os métodos que situa a influência de Janones.
A passagem da campanha para o governo traria um desafio para esse estilo de confronto.
Ao comparar as exigências de atacar um governo e de defender suas políticas, Consentino afirmou: “Eu acho que esse tipo de estratégia funciona melhor quando você é oposição”.
Consentino avalia que esse protagonismo tornou Janones uma referência na esquerda, com utilidade para outros candidatos além de Lula. Isso não significa uma aprovação do método: “Não vejo isso como algo necessariamente positivo, mas algo dado da realidade”, disse. Para ele, a comunicação direta com o eleitor convive com o risco de campanhas mais personalistas e menos voltadas ao debate de políticas públicas.
Para Tathiana Chicarino, a discussão sobre o futuro de Janones também precisa passar pelo partido e pelas organizações políticas, e não apenas por uma eventual função no governo. Ela espera que o aprendizado sobre comunicação digital seja incorporado tanto pelo governo quanto por partidos e movimentos sociais, mesmo que o deputado não exerça influência diretamente.
A pesquisadora vê a possibilidade de mudança na forma de a esquerda fazer política, mas ressalta que ela não depende de Janones isoladamente.
Na sua avaliação, compreender as redes exige conectá-las à mobilização presencial: “É importante articular sempre redes e ruas”, afirma. As missões e os apelos de urgência da reta final podem funcionar para a decisão eleitoral, diz, mas têm pouca possibilidade de manutenção no médio e longo prazo.

