Rua, rede e medo fizeram votação mudar para Lula
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Ao ser reeleito para o inédito quarto mandato como presidente da República Brasileira, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcou mais um ponto gigantesco na história do maior país da América Latina e um capítulo emocionante em sua monumental biografia.
Em quatro anos, ele derrotou o então presidente Jair Bolsonaro no cargo e o filho mais velho, Flávio Bolsonaro, chamado de 01, que, assim como o pai (preso por tentativa de golpe de Estado), estará, a partir de fevereiro de 2027, sem mandato, em 24 anos. De quebra, o irmão Eduardo também está desempregado nos Estados Unidos, depois de fugir do Brasil, ser cassado pela Câmara e demitido da Polícia Federal por abandono de emprego.
Obviamente que pai e dois filhos estão com o futuro incerto, enquanto o bolsonarismo também passará por um revés político de impacto imprevisível. A direita dá sinais de abrir caminho fora do guarda-chuva ideológico da família Bolsonaro dentro e fora do Congresso Nacional, olhando 2030, fim do novo mandato de Lula.
O espectro político que abriga as correntes liderais, conservadoras no centro-direita, na economia de mercado, na propriedade privada, ficou em estado de choque. Antes da derrota de domingo, a promessa de “redemocratizar o Brasil” soou como grave ameaça de golpe, feita por um Bolsonaro, indicado exclusivamente pelo pai para anistiá-lo e aos golpistas do 8 de janeiro.
O bolsonarismo, que se junta à direita e confunde o eleitor desatento, configura-se como um movimento político e social de extrema-direita em volta de Bolsonaro. Portanto, a derrota de Flávio por uma diferença de 10,4 milhões de votos do 1º para o 2º turno é a soma de vários fatos: medo, virulência da campanha, subestimação do adversário, inexperiência, reinvenção da campanha de Lula nas ruas e redes sociais e compreensão pelo eleitor da gravidade do momento histórico brasileiro, inclusive com sucessivas ameaças de controle do Supremo Tribunal Federal com a nomeação de cinco ministros, com a força da extrema-direita no Congresso e o poder ampliado da família Bolsonaro nas duas casas.
Com uma vitória histórica de 4,4 milhões de votos de virada a contra Flávio, Zema, Caiado e Augusto Cury, além dos governadores eleitos nos principais estados, Lula conseguiu ainda a proeza de frear a extrema-direita na América Latina, a influência do governo Donald Trump e as big techs.
Tudo isso com a força da juventude, dos idosos e das mulheres mobilizadas na mesma direção. A de salvar a democracia, também, duas vezes em quatro anos. O mercado desabou nesta segunda, chocado com a ameaça de anulação da eleição no TSE, presidido pelo ministro Kássio Nunes Marques, ironicamente nomeado por Jair Bolsonaro.
O fato histórico de ser o primeiro candidato à Presidência a conquistar uma virada entre turnos da história do Brasil, Lula ampliou a vantagem no Nordeste todo e em outros estados. No Maranhão, a vantagem foi acima de 300 mil ante o 1º turno, já no Piauí e Ceará, com os respectivos governadores do PT, e na Bahia, a diferença foi esmagadora.
No Maranhão, Lula teve o apoio do governador Carlos Brandão, do vice Felipe Camarão, da senadora Eliziane Gama e do senador eleito André Fufuca. Já o governador eleito Eduardo Braide, no entanto, ficou neutro, mas cuidou cedo de cumprimentar Lula pela vitória.
O importante é que, na eleição mais disputada da história, a democracia venceu, com a população amedrontada de um futuro nebuloso, mas corajosa para dizer nas ruas que as conquistas do voto desde a campanha das Diretas Já de 1984 não são um sentimento descartável por um defensor contumaz do autoritarismo.
E optou, pela segunda vez, por dar um choque no filho do bolsonarismo, cujo discurso estava intrínseca a ameaça de golpe, até quando fala em pedir anulação do pleito. O presidente Lula não tem minoria no Congresso, mas conta com uma arma poderosa para enfrentar os extremistas: a legitimidade do voto da maioria da população, mobilizada e consciente de sua força.

