17 de julho de 2026
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Noticiário policial mudou de lugar e ampliou espaço para a política

Por Raimundo Borges

O Imparcial – Quando comecei no jornalismo, em 1970, o noticiário político andava nos rodapés e nos cantos das páginas dos jornais. Nem editoria de política havia no principal jornal do Maranhão, O Imparcial. Eu a criei em 1982, para valorizar a primeira eleição direta para governador, já no embaçado amanhecer da democracia. O noticiário mais pontual, dono das manchetes, era o que saía das delegacias de polícia e das investigações particulares dos jornalistas mais tarimbados, atrás de “furos” de reportagem.

O ano de 1970 marcava o auge da década do obscurantismo político, do AI-5, de 1968, do Congresso Nacional fechado por dez meses, das notícias censuradas ou “copidescadas” pelos agentes especializados da ditadura militar. Tudo isso ficou para a história. Hoje, o jornalismo que desperta atenção nos poucos impressos e viraliza nas mídias eletrônicas, gera repercussão e muda paradigma é a cobertura política, valorizada com as análises de doutores da academia e especialistas nos variados temas que envolvem os poderosos.

No Maranhão, os conflitos e a mortandade no campo, pela disputa das terras devolutas da União, griladas em todos os cantos, tinham mais importância para a imprensa nacional, com seus correspondentes locais, do que o cotidiano das delegacias de polícia. Obviamente, ressalvadas as exceções. O livro Grilagem: Corrupção e Violência em Terras do Carajás, do coordenador da CPT, Padre Victor Asselin, em 1982, ganhou repercussão como um libelo relato-denúncia do avanço dos grandes projetos, da expansão da fronteira agrícola no sul do Pará, no Vale do Pindaré e no sul do Maranhão, marcados, também, por violência na disputa de terras ao longo da Ferrovia dos Carajás.

Até o traçado daquela via férrea da então estatal Companhia Vale do Rio Doce teve que passar por cima do povoado São Pedro da Água Branca (hoje município), local suspeito, pelos militares, de ter se tornado “ninho” de uma célula comunista do MR-8. Fica no enclave, bem na divisa do Maranhão com o Pará, no qual os ruralistas da floresta votavam em candidatos dos dois estados. O então deputado Sálvio Dino escreveu um livreto sobre esse pedaço de chão sem definição geográfica. Eu e o jornalista Luiz Pedro estivemos em São Pedro da Água Branca, por três vezes, no auge dos conflitos agrários entre posseiros e grileiros.

Atualmente, o que dá notícia bombástica é a política e seus envolvidos em corrupção. Nas cidades, ela avança como colônias de “cupins engravatados”, devastando o dinheiro público. Ao decidir enfrentar a corrupção nas emendas parlamentares, em suas diferentes facetas, o ministro do STF Flávio Dino (filho do ex-deputado e escritor Sálvio Dino), ao lado de alguns companheiros de toga, virou alvo preferencial de deputados e senadores, ironicamente, eleitos para fiscalizar e denunciar desvios de dinheiro público no âmbito dos demais poderes, em suas esferas de atuação.

Diante de tantos casos de corrupção entre mandatários eleitos, hoje em dia, ficou difícil, pois, até contar quantos são os parlamentares e membros dos outros poderes punidos, presos, condenados e inelegíveis por desvio de conduta política. Vários chegam a se misturar até com o crime organizado, na engrenagem do PCC e do CV, na qual misturam dinheiro público com o da bandidagem, desviando-o, fraudando licitações e “lavando” o roubo.

Desse modo, a montanha de recursos públicos operada pelos parlamentares no orçamento federal, mediante emendas Pix e orçamento secreto, tornou-se um desafio saber para onde segue a verba, quem a recebe e até quem a envia. Prestação de contas? Esquece. Além disso, há também o esbanjamento nos partidos com os fundos de campanha eleitoral (R$ 5 bilhões) e o partidário (recebido mensalmente).

As operações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal se repetem todas as semanas, inclusive em gabinetes do Congresso Nacional, em assembleias legislativas (como no Rio de Janeiro), prefeituras e câmaras de vereadores. O noticiário político, portanto, ganha extrema relevância, com a devassa dos esquemas políticos de corrupção. Nunca se viu tantos mandatários eleitos pelo povo e seus cúmplices sendo apanhados roubando da Educação, da Saúde e da Infraestrutura.

O país nunca teve tantos canais de rádio, televisão, portais de internet e redes sociais voltados para a cobertura política. Tal movimento é centralizado na avalanche de alvos engravatados, muitos deles, lamentavelmente, eleitos denunciando corrupção. As principais manchetes não mudam: são batalhões de policiais treinados, batendo à porta de acusados de corrupção. São bilhões de reais que evaporam nas mãos de certos políticos, que entram pobres no mandato e se tornam milionários antes de terminar os quatro anos. Obviamente, não são todos, mas são muitos, infelizmente.

Enquanto isso, aquele noticiário do passado, que alimentava o interesse da população, com o carimbo de policialesco e sensacionalista, mudou de fonte e de personagens. Saiu dos distritos policiais e entrou nas operações policiais no combate à corrupção, respaldado pelo Judiciário e pelo Ministério Público.

O ladrão da padaria da esquina não é mais notícia. O que ganha interesse na cobertura jornalística é a corrupção. Tais coberturas têm muito a ver com as eleições de outubro. Afinal, os políticos que se desviaram da excelência da representação popular são os mesmos que vieram do pleito de quatro anos atrás e agora correm o risco de serem trocados em outubro por quem está chegando, ou pelos que honraram o voto recebido. Obviamente, com o eleitor desatento em 2022, mais ressabiado e motivado para ser fiscal de si mesmo na urna.

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