25 de outubro de 2026
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A independência não é ingratidão. É a responsabilidade de responder à própria consciência.

Gastão Vieira*

Nunca contei publicamente esta história. Embora muitas vezes perguntado sobre determinadas escolhas e oportunidades perdidas ao longo da minha vida política, preferi o silêncio. Não por constrangimento, mas porque sempre considerei que a história de um homem público deve ser julgada mais por seus atos do que por suas explicações.

Uma fotografia recente, ao lado do presidente Lula, num encontro marcado pelo carinho e pelo respeito, trouxe de volta lembranças e perguntas que me acompanham há décadas. Não apenas as escolas que construí e reformei, ou as políticas educacionais que ajudei a implantar no Maranhão. Vieram também as lembranças dos caminhos que escolhi e daqueles que deixei de percorrer.

Tudo começou, de certa maneira, numa sexta-feira, no plenário quase vazio da Câmara dos Deputados.

Os funcionários procuravam parlamentares dispostos a ocupar a tribuna durante o Pequeno Expediente. Eram dez minutos de discurso, sem apartes. Muitos evitavam aquelas sessões. Havia uma lembrança histórica: o discurso de Márcio Moreira Alves, posteriormente utilizado como um dos pretextos para a decretação do AI-5, em dezembro de 1968.

Aceitei o convite.

Escolhi falar sobre a pobreza secular do Maranhão. Não queria fazer oposição a ninguém. Queria compreender por que um estado que conhecera períodos de prosperidade continuava incapaz de assegurar condições dignas de vida à maioria de sua população.

O Maranhão é pobre. E a responsabilidade é de todos nós, políticos que, durante séculos, não fizemos o suficiente para transformar essa realidade.

Desci da tribuna convencido de que havia cumprido meu dever.

No domingo, em Brasília, recebi telefonemas de familiares. Um jornal de oposição publicara uma manchete surpreendente: um deputado sarneysista responsabilizava a família Sarney pela pobreza do Maranhão.

Foi um reboliço.

A oposição explorou minhas palavras. Dentro do grupo político ao qual pertencia, surgiram acusações de traição e suspeitas de que eu fosse um esquerdista infiltrado.

Walter Rodrigues, meu amigo, autor da histórica Colunão do Walter, formulou uma pergunta que nunca esqueci: como poderiam dois hemisférios tão diferentes habitar o mesmo cérebro?

Mais do que uma crítica, aquela pergunta representava um desafio intelectual.

Eu não havia traído meu grupo. Havia exercido meu direito de pensar.

Naquele momento, compreendi que precisava estudar ainda mais, aprofundar minhas convicções e construir uma maneira própria de interpretar a realidade.

A política brasileira parecia obedecer a uma regra inflexível: quem estava no governo deveria defender tudo; quem estava na oposição deveria condenar tudo.

Recusei essa simplificação.

Sempre reconheci a importância de José Sarney, de Roseana e dos companheiros com quem construí parte fundamental da minha trajetória. Não renego essa história. Aprendi, trabalhei e assumi responsabilidades importantes ao lado deles.

Mas nunca aceitei que lealdade significasse subserviência.

A lealdade reconhece uma história compartilhada. A subserviência exige a renúncia ao pensamento próprio.

Essa escolha teve consequências.

Perdi oportunidades de disputar o governo do Maranhão. Perdi uma eleição para o Senado por uma diferença mínima. Enfrentei incompreensões, resistências e desconfianças.

Mas também abri meu próprio caminho. Fui deputado, secretário de Educação e ministro do Turismo. Exerci responsabilidades que ampliaram minha compreensão do Brasil e fortaleceram minhas convicções.

Não considero minha trajetória uma sucessão de oportunidades perdidas. Considero-a o resultado das escolhas que fiz.

A independência me custou caminhos. A coerência me permitiu construir o meu.

Hoje, aos 80 anos, percebo que o tempo não enfraqueceu minhas convicções. Tornou mais clara a necessidade de submetê-las permanentemente ao estudo, à reflexão e à experiência.

A edição 58 da revista Liberta, publicada às vésperas do segundo turno presidencial, trouxe análises que reforçaram intuições que venho amadurecendo há décadas.

Entre elas, impressionou-me especialmente a reflexão de Luís Costa Pinto sobre o novo Congresso Nacional e os desafios que sua composição representa para o funcionamento do sistema político brasileiro.

Conheço o Parlamento. Sei que uma eleição presidencial não assegura, por si só, as condições necessárias para governar.

Ganhar a Presidência é uma tarefa. Construir uma maioria capaz de sustentar um projeto de governo, sem renunciar aos seus compromissos essenciais, é outra.

O Congresso também possui legitimidade conferida pelo voto. Precisa ser respeitado. Mas essa legitimidade não dispensa a responsabilidade de negociar com transparência, preservar as instituições e responder aos interesses da população.

A crescente influência parlamentar sobre a destinação dos recursos públicos exige uma discussão séria sobre governabilidade, responsabilidade orçamentária e equilíbrio entre os Poderes.

Para um governo que pretenda enfrentar desigualdades históricas, essa questão é decisiva.

Outros autores da revista, como Juliano Medeiros e João Cezar de Castro Rocha, ajudam a ampliar essa reflexão.

A esquerda precisa compreender melhor as transformações da sociedade brasileira. Não pode depender exclusivamente da memória de suas realizações, por mais importantes que tenham sido.

As novas gerações exigem respostas para problemas que nem sempre existiam quando começamos nossa vida política.

As redes digitais transformaram a circulação das informações, a formação das opiniões e a própria maneira de participar da vida pública.

Minha geração aprendeu a fazer política por meio de livros, debates, organizações estudantis, movimentos sociais e experiências coletivas.

Hoje, os algoritmos exercem uma influência extraordinária sobre o que as pessoas veem, discutem e acreditam.

Não podemos ignorar essa transformação.

Uma sociedade que perde a capacidade de refletir criticamente sobre a realidade corre o risco de trocar o debate de ideias pela simples repetição de certezas.

Disse pessoalmente a Lula que era necessário falar aos jovens sobre o futuro.

Continuo convencido disso.

Não podemos oferecer às novas gerações apenas a lembrança das conquistas do passado. Precisamos construir, com elas, razões concretas para acreditar no amanhã.

No Maranhão, essa responsabilidade é ainda maior.

A pobreza que denunciei naquela sexta-feira na Câmara dos Deputados continua presente na vida de muitas famílias.

Não se trata de responsabilizar exclusivamente uma pessoa, uma família ou um governo. Trata-se de reconhecer uma realidade histórica que atravessa diferentes administrações e exige soluções estruturais.

A educação sempre foi, para mim, um dos instrumentos fundamentais dessa transformação.

As escolas que construí e reformei, os programas que implantei e as oportunidades que procurei ampliar não foram favores prestados à população. Foram obrigações de quem recebeu a responsabilidade de governar.

Não podemos aceitar que a pobreza seja uma herança transmitida de geração em geração.

Em 2022, tentei retornar à Câmara dos Deputados. Não consegui.

Aceitei o resultado das urnas, como sempre fiz. Mas uma derrota eleitoral não encerra a vida pública de quem tem ideias, experiência e disposição para continuar contribuindo.

Minha posição nesta eleição presidencial é conhecida. Apoio Lula e mantenho minhas divergências com o projeto político representado por Flávio Bolsonaro.

Não escondo minhas escolhas. Tampouco pretendo transformá-las em motivo para desrespeitar quem pensa de maneira diferente.

Vejo duas tarefas diante de nós: primeiro, a decisão democrática das urnas; depois, a construção das condições políticas e institucionais para governar o país.

Quero contribuir com ambas, colocando minha experiência parlamentar e minha independência a serviço do debate público.

Sei, entretanto, que já não disponho do mesmo tempo que tinha quando comecei.

Aos 80 anos, não tenho mais tanto tempo para continuar tentando.

Não escrevo isso como despedida, nem como expressão de resignação.

Escrevo com a consciência de que o tempo torna mais urgente a responsabilidade de defender aquilo em que acreditamos.

Não quero passar os anos que me restam apenas recordando as batalhas que enfrentei ou as realizações das quais participei.

Quero continuar pensando o Brasil, discutindo seus problemas e contribuindo para que nossos filhos e netos encontrem uma sociedade mais justa do que aquela que recebemos.

Talvez muitos já não se lembrem das escolas que construí, das reformas que realizei ou das disputas políticas que enfrentei. É natural. O tempo renova a memória coletiva.

Mas existe algo que desejo preservar e transmitir.

A independência não é ingratidão. É a responsabilidade de responder à própria consciência.

Foi isso que aprendi naquela sexta-feira distante, diante de um plenário quase vazio.

Foi isso que a pergunta de Walter Rodrigues me ajudou a compreender.

E é isso que continuo defendendo, agora com a serenidade que a experiência proporciona e a urgência que o tempo impõe.

Posso perder uma eleição. Não perderei minha coerência.


*Gastão Vieira é ex-ministro do Turismo, ex-deputado federal e estadual e conselheiro do Conselho Nacional de Educação.

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