Sotero, Machado e a morte em Santaninha
Sotero dos Reis, que morreu pobre na Rua de Santaninha, foi elogiado por Machado de Assis e é membro da ABL
Rego Andrade
jornalista pesquisador e bancário
De Francisco Sotero dos Reis, um certo Machado de Assis, em 1866, disse:

Essa é apenas uma pequena parte do elogio feito por Machado a Francisco Sotero dos Reis no jornal “Diário do Rio de Janeiro”, na seção “Semana Literária“, em 3 de abril de 1866.Esse não foi o único reconhecimento a Sotero feito porum vulto do cenário nacional.Vejamos o que dele falou Rui Barbosa na obra Réplica (1904):
“Nenhum analista mais inteligente e escrupuloso das coisas do nosso idioma conheço eu que Sotero dos Reis”.
Quando faleceu em 16/01/1871, o “Diário do Rio de Janeiro”publicou em seu necrológico:
“filólogo ilustre, latinista sem igual no país, gramático semsuperior nas duas nações em que se fala o português”.
Esse respeito como intelectual, Fancisco Sotero dos Reis (São Luís, 22/04/1800-16/01/1871) conseguiu sem nunca ter saídodo Maranhão, ao contrário de outros nomes da “Atenas Brasileira”, como João Lisboa, Odorico Mendes, Gomes de Sousa e Gonçalves Dias.Isso rendeu a Sotero o patronato da cadeira 19 do grupo de membros socios correspondentes da Academia Brasileira de Letras-ABL.Ou seja, o filólogomaranhense, por conta de sua imensa contribuição à língua e à literatura brasileira, foi homenageado permanentemente comopatrono dessa cadeira de socio corespondente, que é destinadaa membros não efetivos da ABL, geralmente a escritores e intelectuais estrangeiros.O patronato foi viabilizado poresforços dos escritores Coelho Neto e Humberto de Campos e oficializado em ata da ABL, de 09 de Janeiro de 1930:

Sotero dos Reis também é o patrono da Cadeira nº 4 da Academia Brasileira de Filologia-ABRAFIL, da cadeira nº 17 da Academia Maranhense de Letras-AML- e da cadeira 04 da Academia Ludovicense de Letras-ALL. Reis foi poeta, críticoliterário, gramático, jornalista, professor e parlamentar; portudo isso, foi agraciado pelo Império Brasileiro comocavaleiro da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo (1841) elaureado com a Imperial Ordem da Rosa. Mas, quecontribuições deu Sotero à cultura brasileira?
Existe uma mitologia corrente de que o Maranhão é o lugar do país “onde se fala o melhor português”. Descontando-se o exagero, pode-se dizer que Sotero dos Reis tem muito a ver com essa mitologia.A publicação do Curso de LitteraturaPortugueza e Brazileira, lançado em vários volumes entre 1866 e 1873, configura-se, talvez, como o maior serviço de Sotero ao escopo cultural do Brasil Império. Críticos como o falecido Antonio Candido de Mello e Souza consideraram-no o primeiro livro coerente e pensado de história literária do Brasil.A gramática de Sotero chegou a ser adotada em centros como Rio de Janeiro e São Paulo.Também publicou Apostilasde Gramática Geral Aplicada à Língua Portuguesa, GramáticaPortuguesa Acomodada aos Princípios Gerais da Palavra e Gramática Portuguesa Acomodada aos Princípios Gerais da palavra, seguidos da imediata aplicação prática.
Sotero dos Reis também adotou a metodologia francesa de análise literária, enfatizando a leitura crítica e o exame estético dos próprios textos, contribuindo para que o país passasse a compreender e registrar a evolução de sua própria identidade literária. A sistemática utilização da etimologia e da filologia em seus trabalhos e o viés científico aplicado ao seu método de ensino superava análises isoladas e puramente empiristas, fornecendo o rigor necessário para traçar a identidade vernácula do Brasil Império.No campo do ensinopúblico, atuou como inspetor geral da instrução pública na província, planejando os currículos escolares..Foi tradutor de clássicos latinos (como as obras de Virgílio, Salústio e Horácio). O professor Sotero recomendava o ensino da aplicação prática das regras gramaticais no ensino, sob penade que se tivesse um magistério frio e alunos sem entendimento de conteúdo.Foi diretor do Instituo de Humanidades, uma das escolas mais conceituadas da província, fundada por Pedro Nunes Leal. Também dirigiu o Asilo de Santa Tereza, na década de 1860, instituição para instrução feminina, que, segundo nossas pesquisas, funcionou na atual n 119 da Rua Afonso Pena (no século XIX, número 11 da Rua Formosa), no casarão onde morou o padre João Mohana. Como jornalista e publicista, Sotero dos Reisescreveu editoriais no jornal “Publicador Maranhense” e no “Semanário Maranhense”, onde também veiculou algumas de suas aulas para a população.Além do Publicador, trabalhounos seguintes periódicos: “Argos da Lei”, “MiscelâneaPolítico-Literária”, “O Maranhense”, “Correio dos Anúncios”, “Observador”. De 1868 a 1871, com dificuldades financeiras, viúvo e sem casa própria, morou com os filhos na Rua de Santaninha. A informação sobre o local de residência de Sotero no ano de sua morte é do Almanaque do Maranhão, que em 1871 apontava o imóvel de numeração 53 da Rua de Santaninha. Segundo o almanaque, informações de jornais dasépocas de 1870, 1880 e 1890 e confronto de dados de nossapesquisa, o professor Sotero faleceu por volta das 4h30 da madrugada do dia 15 para o dia 16 de Janeiro de 1871 no atual n. 273 da Rua de Santaninha, esquina com Rua doAlecrim, casa marcada abaixo com seta preta, ao lado do sobradinho amarelo.



Ainda em 1871, no dia 12 de maio, a Câmara dos Deputados do Império aprovou a concessão de uma pensãovitalicia a Maria Thereza dos Reis, filha de Sotero, concessãofeita em vista dos serviços prestados pelo filólogo à nação e devido à situação de pobreza da família quando do falecimento do patriarca

