12 de junho de 2024
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Há 80 anos, acontecia o Dia D: do planejamento a construção do mito

Nos 80 anos do Dia D, historiador derruba mitos sobre o Dia D: “Dizer que foi o dia mais crucial da Segunda Guerra está completamente errado”.

“Hoje é o dia. A invasão começou… Será realmente a tão esperada liberação? A liberação sobre a qual tanto falamos, que ainda parece boa demais para ser verdade, como se um conto-de-fadas fosse se tornar verdade? Será que este ano, 1944, nos trará a vitória? Nós não sabemos ainda, mas onde há esperança, há vida. Ela nos enche de uma nova coragem e nos faz fortes novamente”.

Foi assim que, em 6 de junho de 1944, Anne Frank relatou em seu famoso diário as notícias que ouvia no rádio através da BBC. A Invasão da Normandia havia começado

No Dia D, como a data ficou conhecida, tropas aliadas do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá invadiram o litoral norte da França. O desembarque foi o primeiro passo da Operação Overlord — a invasão da Europa ocupada pelos nazistas —; que tinha como objetivo colocar um ponto final na Segunda Guerra Mundial

A data, que completa 80 anos nesta quinta-feira, marca a chegada de 156 mil combatentes à Normandia, que enfrentaram não só a brutal defesa alemã, como também o mau tempo. Mesmo assim, os Aliados conseguiram se firmar na França e, apenas 11 meses depois, colocar um fim no conflito. O Dia D se tornou um mito; mas talvez maior do que foi a própria história. 

Tropas norte-americanas se aproximam da praia de Omaha /Domínio Público

“O Dia D foi um evento muito importante, porque abriu outro front no norte da Europa, algo que Stalin pedia há anos para aliviar a pressão que a Alemanha estava impondo aos soviéticos e que gerou tantas mortes”, explica Icles Rodrigues, doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e autor de ‘O Dia D: Como a História se Tornou um Mito’ (Ed. Contexto), em entrevista ao site Aventuras na História.

“Mas dizer que ele foi o dia mais crucial da Segunda Guerra está completamente errado. Isso foi um mito desenvolvido décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial através de livros, filmes, séries e discursos de presidentes estadunidenses”, ressalta o autor e também apresentador do podcast História FM.

A conquista da Normandia

O planejamento da operação começou ainda em 1943. Meses depois, os Aliados conduziram uma manobra para enganar as forças nazistas quanto à real data e localização dos principais desembarques. A chamada Operação Fortitude foi iniciada em março de 1944.

“Os Aliados desenvolveram a Operação Fortitude, uma operação marcada por dois fronts: Norte e Sul. Em ambos os frontes os Aliados criaram exércitos falsos, com insígnias falsas e tudo, e desenvolveram veículos infláveis para que os aviões de reconhecimento alemães acreditassem que os Aliados tinham muito mais veículos do que de fato tinham, desde aviões a tanques e barcaças de desembarque”, explica Rodrigues.

Na Fortitude Norte eles mandaram tropas falsas para a Escócia, e na Fortitude Sul colocaram tropas falsas em Dover, perto do Passo de Calais, o ponto francês mais próximo da Grã-Bretanha”, diz. 

Icles ainda aponta que estações de rádio foram criadas para serem interceptadas com mensagens falsas. Além disso, o trabalho de espiões ajudou a fazer com que os alemães acreditassem que as tropas na Escócia invadiriam a Noruega, e que as tropas em Dover invadiriam o Passo de Calais.

Em antecipação a uma possível invasão, Adolf Hitler colocou o marechal de campo Erwin Rommel no comando das forças alemãs, para desenvolver fortificações ao longo da Muralha do Atlântico. Já o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, deixou o major-general Dwight D. Eisenhower no comando das forças aliadas.

A Invasão da Normandia começou pouco depois da meia-noite do dia 6 de junho, com extensos bombardeios aéreos e navais; e o lançamento de 24 mil combatentes. Horas depois, por volta das 6h30, os ataques aéreos foram mantidos, mas agora com o suporte do desembarque de tropas anfíbias ao longo de 80 quilômetros na costa de Normandia; que foram divididas em cinco setores: Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword

A conquista da região era importante por alguns motivos. Um deles era para libertar a França ocupada, uma vez que os Aliados contavam com o apoio da França Livre comandada por Charles De Gaulle”, continua Icles. 

“Outro motivo é porque a França é próxima à Alemanha, então, após libertar o país, os Aliados usariam a França como ponto de partida para a liberação da Bélgica, Países Baixos e Dinamarca, e poderiam avançar para a Alemanha de maneira muito mais rápida e factível do que pela Itália, que foi por onde eles invadiram primeiro em 1943 por insistência dos britânicos, que queriam libertar o Mediterrâneo da influência nazista para manter o controle do mar, essencial para a exploração colonial da Índia”.

Riscos e consequências

Como já dito, a Invasão da Normandia teve meses de planejamento, essenciais para o sucesso da operação. Afinal, caso falhasse, detalha Rodrigues, os alemães reforçariam ainda mais suas defesas na Normandia; visto que as frentes estavam desfalcadas pela convicção de Hitler que a invasão aconteceria pelo Passo de Calais. 

Uma invasão futura na Normandia encontraria uma resistência muito mais forte e teria mais perdas de vidas”.

Outro ponto em que os oficiais foram extremamente meticulosos diz respeito ao momento em que o desembarque deveria ocorrer. Visto que condições climáticas favoráveis eram imprescindíveis para o sucesso. 

Desembarque na praia Omaha, junho de 1944 / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Assim, a escolha da data foi feita para uma noite de lua cheia com a maré da primavera; o que, ao amanhecer, faria com que a maré estivesse quase na metade do caminho, facilitando o desembarque, aponta a BBC. Na prática, a data escolhida havia sido o dia 5 de junho, mas o péssimo tempo fez com que a operação fosse adiada em 24 horas. 

“A invasão aconteceu em um breve período de clima propício. Poucos dias depois do Dia D o tempo na Normandia ficou péssimo, e se a operação do dia 6 tivesse falhado, os Aliados teriam que esperar um bom tempo para conseguir organizar e achar uma janela propícia de invasão”, aponta Icles. “Além do mais, isso poderia ter implicações políticas nos países Aliados, como perdas de cargos e eleições”.

Mas um possível fracasso da Invasão da Normandia teria significado o fracasso dos Aliados e logro dos nazistas? Rodrigues afirma que não, visto que a Alemanha já perdia a guerra desde meados de julho de 1943. “Desde a derrota na campanha de Kursk, a Alemanha nazista nunca mais realizou uma ofensiva contra a União Soviética, passando para a defensiva”. 

“Poucos dias depois do Dia D, dia 22 de junho (para coincidir com o aniversário da URSS na Operação Barbarossa) a União Soviética empreendeu a Operação Bagration, que causou a derrota militar mais devastadora da história da Alemanha, com todo o Grupo de Exércitos Centro sendo quase obliterado. É possível dizer que o Dia D teve um papel na aceleração do fim da guerra, mas a ideia de que a Operação Overlord venceu a guerra é um devaneio”, destaca o historiador.

O mito do Dia D

Apesar de sua relevância ser inquestionável, o mito sobre o Dia D ser o mais importante da guerra começou ser pavimentado há décadas. “Foi um longo processo”, explica o autor de ‘O Dia D: Como a História se Tornou um Mito’. 

“Os primeiros espasmos desse mito do Dia D salvador do mundo começam entre 1959 e 1962 com os lançamentos do livro ‘O mais longo dos dias’ do jornalista irlandês Cornelius Ryan e o filme de mesmo nome sobre o Dia D”, aponta.

Icles também vê os impactos sociais da Guerra do Vietnã como importantes nessa discussão. Afinal, durante o período, embora a mitologia sobre o Dia D estivesse apenas engatinhando, acabou deixada de lado por conta do novo conflito. 

Foi resgatada nos anos 1980 pelo então presidente Ronald Reagan, que proferiu dois discursos na Normandia que foram televisionados e contribuíram muito para sua reeleição, a mais bem sucedida da história dos Estados Unidos”, contextualiza.

“Esse aniversário de 40 anos influenciou muita gente, incluindo pessoas como o historiador Stephen Ambrose, um dos maiores propagadores da mitologia do Dia D salvador, e a própria equipe de Bill Clinton que organizou o aniversário de 50 anos”. 

Outra figura fundamental, aponta Rodrigues, foi o cineasta norte-americano Steven Spielberg; que foi muito influenciado pelo ambiente nostálgico da Segunda Guerra Mundial durante as décadas de 1980 e 1990. 

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