18 de julho de 2024
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Carro com símbolo nazista desfilou no 7 de setembro de Curitiba, confirma Exército

General responsável pelo evento disse que veículo é de uma entidade civil e que não sabia que símbolo era nazista.

O Exército Brasileiro confirmou, em uma reunião com o Ministério Público Federal (MPF) no Paraná, que um veículo com símbolo nazista desfilou no 7 de setembro em Curitiba (PR) em 2023. O carro pertence ao presidente de uma entidade civil destinada a preservação de veículos militares antigos e teria sido utilizado ao menos outras cinco vezes nos desfiles do feriado da Independência na capital paranaense.

Até agora, apenas um site de notícias local, O Gazeteiro, havia divulgado a informação. Diante da confirmação de que o veículo participou do desfile, a procuradora da República responsável por investigar o episódio, Hayssa Kirie Medeiros Jardim, decidiu que irá realizar uma reunião com o Museu do Holocausto para avaliar a situação.

Depois, Jardim se reunirá com a Brigada Paranaense de Viaturas Militares Antigas (BPVMA), presidida pelo proprietário do veículo, Laércio Turra. Além disso, a procuradora sugeriu ao Exército a realização de ações educativas junto ao Museu do Holocausto de Curitiba.

O símbolo nazista que estava no veículo que desfilou não era a suástica, o símbolo mais famoso do terceiro Reich, mas uma cruz chamada de Balkenkreuz, principal símbolo utilizado em carros e aviões militares alemães entre 1940 e 1945, segundo o Museu do Holocausto de Curitiba.

O general de brigada Erlon Pacheco da Silva, que comanda a Artilharia Divisionária da 5ª Divisão de Exército, responsável por coordenar o desfile do 7 de setembro, demonstrou, em reunião com o MPF realizada no último dia 23 de fevereiro, não saber que o símbolo era nazista. Ele afirmou que cabe à 5ª Divisão somente a coordenação do desfile, sem atribuição de vetar ou autorizar a participação de veículos da sociedade civil na solenidade.

Além da BPVMA, também participaram do desfile escolas estaduais e municipais. Segundo explicou o general, o desfile é uma solenidade cívico-militar, de forma que o veículo com os símbolos nazistas não desfilou junto às tropas do Exército, mas sim na parte destinada às entidades da sociedade civil.

“Se o veículo foi exibido em um desfile cívico-militar em sete do nove de vinte e três? Positivo, ele desfilou. Se o proprietário foi identificado? O proprietário é o presidente da Brigada Paranaense de Viaturas Militares Antigas”, afirmou o general em reunião gravada com o MPF. Na sequência ele explicou que o desfile é dividido em duas partes, com uma parte civil antes seguida pelos militares.

“Desfile cívico é a primeira parte, que esperam as escolas estaduais, as escolas municipais, onde desfilam as viaturas históricas da Brigada Paranaense de Viaturas Antigas. Nessas viaturas históricas desfilam os pracinhas da FEB (sigla para Força Expedicionária Brasileira, grupamento militar do país que lutou na Segunda Guerra Mundial na Europa).”

‘Talvez se sentissem afrontados’

Além disso, o general afirmou à procuradora na reunião, que foi realizada por videochamada, que conversou com os representantes da Brigada Paranaense e que eles teriam demonstrado não ter conhecimento de que se tratava de um símbolo nazista.

“Quando na Segunda Guerra, quando surgiu a suástica ela foi sobreposta à cruz de ferro nas viaturas de retirada. Depois que terminou a guerra e a cruz de ferro permanece como símbolo do exército (alemão). Então, nas conversas informais também com a brigada (Brigada Paranaense de Viaturas Militares Antigas) em hipótese alguma eles queriam fazer nenhuma apologia, muito pelo contrário”, afirmou o general na reunião, segundo a transcrição do MPF.

“Eles usaram viaturas da época com combatentes da época, tanto que os combatentes, eles estavam usando essas viaturas. Então, também, vamos dizer, talvez se sentissem afrontados. Mas eles estavam ali realmente se sentindo representando a época ali, da guerra, isso foi o que a gente levantou”, seguiu o general relatando as informações que obteve junto à Brigada Paranaense de Viaturas Militares Antigas.

O BPVMA se apresenta na internet como uma entidade sem fins lucrativos destinada a preservar viaturas militares antigas e a homenagear a Força Expedicionária Brasileira, o grupamento militar de brasileiros que lutou na Segunda Guerra na Europa contra as tropas nazistas da Alemanha e as fascistas da Itália. De acordo com o general, a brigada participa dos desfiles de 7 de setembro na capital paranaense desde 2006.

‘Profundo espanto e mal-estar’

Apesar da versão apresentada pelo general Erlon Pacheco da Silva, a procuradora Hayssa Medeiros já havia solicitado um parecer do Museu do Holocausto de Curitiba sobre a imagem do veículo que desfilou no 7 de setembro ano passado.

Em resposta ao MPF, o Museu do Holocausto manifestou espanto com a presença do veículo no desfile e esclareceu que o uso do símbolo no modelo de caminhão militar que desfilou não deixa dúvidas sobre a referência ao nazismo, já que a cruz só foi utilizada nos veículos militares alemães no período do movimento liderado por Hitler.


Parecer do Museu do Holocausto de Curitiba / Reprodução/MPF

“Em outras palavras, tanto o veículo quanto a cruz representados de forma isolada não garantem interpretação de simbologia nazista ou de qualquer forma de apologia; porém o uso da cruz estampada num Kübelwagen não deixa dúvidas sobre o seu propósito. A combinação da Balkenkreuz com o Kübelwagen, independentemente de o carro ser original ou réplica, inevitavelmente remete ao período nazista, único no qual o modelo de carro e essa cruz foram usados em conjunto”, diz a manifestação encaminhada ao MPF pelo coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss.

O documento foi apresentado ao general na reunião com a procuradora, ao que o militar reagiu: “Não há dúvida que é uma visão bem diferente da que a gente estava tendo aqui”. Como não cabia ao Exército autorizar ou não os veículos do desfile, e como nem todos teriam conhecimento de que a cruz seria um símbolo nazista, a procuradora entendeu ser necessária uma reunião com o Museu do Holocausto e depois com a BPVMA para conscientizá-los sobre as simbologias nazistas.

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