19 de julho de 2024
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A Tríplice Aliança e a carnificina no Paraguai

Antonio Carlos Lua*

Em março de 1870, há 154 anos, chegava ao fim a Guerra do Paraguai, o maior e mais letal conflito armado ocorrido na América Latina, que teve início em 1864 com o Brasil, a Argentina e o Uruguai formando a Tríplice Aliança, arquitetada pela Inglaterra para dizimar a população paraguaia. 

As consequências drásticas da guerra refletem até hoje no Paraguai que, na época, destoava nas américas pelo seu desenvolvimento socioeconômico, mantendo independência em relação ao imperialismo inglês, que exercia forte influência sobre o Brasil, a Argentina e o Uruguai.

Antes da guerra, o Paraguai, praticamente, não possuía analfabetos. Seu desenvolvimento agrícola permitia-lhe produzir tudo o que sua população necessitava e sua atividade industrial era significativa. 

O país tinha a indústria mais avançada da América do Sul, com ferrovias, estaleiros, indústrias, metalúrgicas, têxteis, de calçados, de louças, de materiais de construção, de instrumentos agrícolas, de tintas e de papel, além do telégrafo e da grande Fundição de Ibicuí.

A balança comercial no país era sempre favorável e a moeda era forte e estável. Suas exportações valiam duas vezes mais que as importações. O Paraguai tinha eliminado a oligarquia, a escravidão, a violência, a miséria e o analfabetismo. Era o único país sul-americano que não tinha dívida externa ou interna, com a economia crescendo sem a interferência de empréstimos estrangeiros.

As bases do Tratado de Tríplice Aliança que massacrou o Paraguai tinham como objetivo estabelecer a partilha de uma grande fração do seu território, retirando sua soberania sobre os seus rios, responsabilizando o país por toda a dívida de guerra, estabelecendo também o saque e a destruição de suas instalações industriais. 

O Paraguai ficou arrasado com a guerra. Sua população foi reduzida a uma pequena parcela e sua economia foi destruída. Desde o episódio, o país nunca mais se recuperou e é hoje um dos países mais pobres da América Latina.

Na época, a Inglaterra exportava aproximadamente 70% da sua produção, constituída por produtos industrializados. Ela necessitava de novos compradores para estas mercadorias. Além de não ser um grande exportador destes produtos, nem um voraz consumidor de mercadorias inglesas, o Paraguai impedia a entrada dos capitais provenientes da Grã-Bretanha, com seu modelo econômico independente.

No período, os produtos industrializados do Paraguai já começavam a abastecer a América do Sul, o que não era bom para o comércio britânico que entrou em uma crise que acentuou ainda mais sua necessidade de destruir a República Guarani, que possuía terras férteis e excelentes para o cultivo do algodão – matéria-prima vital para a fortíssima indústria têxtil da Inglaterra, que até então dependia das provisões dos Estados Unidos.

Os capitalistas ingleses estavam inquietos com a promissora experiência de desenvolvimento paraguaia, que poderia influenciar a política econômica de outros países sul-americanos. Portanto, não foi por acaso que a Inglaterra estimulou e alimentou a Guerra da Tríplice Aliança contra o  Paraguai, financiando os aliados – Brasil, Argentina e Uruguai – com grandes empréstimos financeiros. 

No contexto histórico da época, os países da América Latina tinham suas economias voltadas para a Inglaterra, que fornecia a maior parte dos produtos industrializados. Além do comércio, as estradas, as instituições bancárias e as maiores empresas eram inglesas.

No conflito, cerca de 90% da população masculina paraguaia – com idade superior a 20 anos – foi assassinada pelas tropas brasileiras, causando um desastre demográfico que arrasou o país, deixando uma mancha vergonhosa na história do Brasil. 

O dado mais estremecedor da guerra foi que a maioria das vítimas paraguaias não eram soldados, mas sim membros da população civil, incluindo meninos, velhos e mulheres, que também morreram nas frentes de batalha. 

Com o Exército paraguaio praticamente exterminado, o general Luís Alves de Lima e Silva, o ‘Duque de Caxias’ – que liderava as tropas brasileiras no Paraguai – perguntou ao imperador Dom Pedro 2º: “Quanto tempo ainda precisamos para terminar a guerra, para transformar em fumaça e pó toda a população paraguaia, para matar até os fetos no ventre das mulheres? Foi Duque de Caxias que também lançou cadáveres de soldados guaranis coléricos no rio Paraguai.

Na época, crianças paraguaias com idade entre 6 e 8 anos idade – aterrorizadas no calor da batalha – se agarravam às pernas dos soldados brasileiros, chorando, pedindo que não as matassem. Mas não havia piedade. Elas eram degoladas no ato. Quando as mães recolhiam os corpos dos filhos e ainda havia feridos, os soldados brasileiros tocavam fogo no local. 

Mesmo com a desproporcional vantagem bélica e a enorme disparidade entre o tamanho e o poder de fogo entre as forças aliadas do Brasil, Argentina e Uruguai e os soldados paraguaios, a guerra só veio a ser encerrada em 1º de março de 1870. Isso porque havia uma cláusula no pacto da Tríplice Aliança, que previa que o conflito só terminaria com a morte do presidente paraguaio, Solano López.

O episódio mais traumático na guerra foi quando, em 16 de agosto de 1869, na batalha de Campo Grande (ou Acosta Ñu, para os paraguaios), cerca de 20 mil soldados brasileiros por determinação do general Duque de Caxias, lançaram um pesado fogo de artilharia contra aproximadamente 3.500 menores paraguaios, criando uma verdadeira carnificina. Devido ao episódio, o Dia da Criança no Paraguai é celebrado no dia 16 de agosto.

*Antonio Carlos Lua
Graduado em Jornalismo e Direito pela Unisinos (Rio Grande do Sul), tem Mestrado em Jornalismo Científico na Universidade Autônoma de Puebla (México) e Especialização em Jornalismo Investigativo na Universidade Javeriana de Bogotá (Colômbia). Ex-Diretor de Comunicação da CNBB (Conf. Nacional dos Bispos do Brasil) da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e do Tribunal de Justiça do Maranhão, foi repórter do ‘Jornal Zero Hora’ (Porto Alegre/RS) e da revista internacional ‘Sem Fronteiras’, na África, atuando na Nigéria, Senegal, Moçambique, Angola, Costa do Marfim e Zimbabwe. Com 43 anos de efetivo exercício no Jornalismo, atuou como profissional de comunicação em projetos sociais desenvolvidos no Caribe e na América Latina pela Cebemo (Holanda), Misereor (Alemanha) e Unicef (ONU).

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