Maranhão do “Fala que te Escuto” nos discursos dos governadores
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Se o ex-presidente José Sarney fosse hoje candidato a governador do Maranhão, o que diria ele de diferente daquele discurso histórico do dia 31 de janeiro de 1966, na posse no Palácio dos Leões, depois de enterrar o vitorinismo de 21 anos? Sarney denunciou a grave situação de pobreza, fome e analfabetismo no estado; prometeu combater a corrupção e modernizar a infraestrutura estadual. O icônico discurso chegou a ser tema do curta “Maranhão 66”, do cineasta Glauber Rocha. Na fala, da janela do Palácio dos Leões, diante de uma multidão na Praça Pedro II, José Sarney prometeu enfrentar a corrupção, a desonestidade, a violência e a contradição entre as riquezas potenciais e a fome longamente instalada.
Quase meio século depois (49 anos), no dia 1º de janeiro de 2015, o governador Flávio Dino também fez um discurso histórico. Da mesma janela frontal do Palácio dos Leões, com a Praça Pedro II tomada pelo povo, sob o mesmo rufar de pandeirões de bumba-meu-boi e batuques de tambores de crioula, ele prometeu uma era de esperança. Anunciou o fim dos abusos políticos, “um novo momento de alegria, esperança e reconstrução do estado”. Coincidentemente, também iria combater duramente a desigualdade e erradicar a pobreza. Assinou o decreto criando o programa Escola Digna, um avanço do Projeto “João de Barro”, de Sarney, de combate ao histórico analfabetismo.
Vale destacar que José Sarney, com 35 anos, foi eleito governador na coligação encabeçada pela UDN (União Democrática Nacional), em aliança com o PSP (Partido Social Progressista), e teve apoio direto do primeiro presidente da ditadura militar de 1964, Marechal Humberto Castelo Branco. Era o governo do “Maranhão Novo”, que criou um arrojado programa de infraestrutura no estado. Já o responsável pelo fim do sarneísmo, Flávio Dino, eleito pelo PCdoB e por oito partidos coligados, adotou o slogan “Governo de Todos Nós”. Como Sarney, tornou-se uma estrela política nacional, hoje com forte influência no STF, onde desembarcou em 2023, deixando para trás um mandato inteiro no Senado Federal.
Já o atual governador Carlos Brandão assumiu, em 1º de janeiro de 2023, o mandato conquistado nas urnas de 2022, junto com Flávio Dino, de quem foi vice em duas eleições. “O nosso governo é de continuidade, mas com avanços. Naturalmente, ainda tem muita coisa para ser feita, mas nós temos que seguir fortalecendo a educação – o carro-chefe –, única maneira de mudar a vida das pessoas”. Também investiu na infraestrutura, no social, na segurança e no combate à fome e à pobreza. Porém, hoje, em plena pré-campanha eleitoral, José Sarney, com 96 anos, está afastado da política, e Flávio Dino, com 58, ainda tem 17 anos para completar 75 no STF e cair na compulsória. Já Brandão fica nos Leões até 31 de dezembro.
Pois bem, desde 1965, o Maranhão passou 49 anos no sarneísmo e 10 anos no dinismo. Em 1966, o segundo maior estado do Nordeste, com 332 mil km², já era o mais pobre do Brasil. Puxava os piores indicadores de renda, a forte estagnação econômica e a vulnerabilidade social. Logo, os “discursos históricos” de seus governantes não passaram de jargões do tipo “Fala que te Escuto”. Nem o desmanche de três oligarquias políticas fez mudar o cenário de atraso. E veja que o Maranhão já foi mais rico que São Paulo entre o final do século XVIII e o início do século XIX, impulsionado pela cultura do algodão, do arroz e do babaçu.
O Maranhão era uma das províncias mais ricas do Brasil, enquanto São Paulo vivia da agricultura de subsistência mantida pelo açúcar, antes de sua expansão econômica pelas mãos experientes dos italianos. A inversão desses valores empurrou o Maranhão para a agricultura de subsistência, eternos conflitos agrários, brutal desigualdade e pobreza extrema. Porém, hoje, é um dos estados mais promissores, com potencial para dar a volta por cima. Até a Ufma está fazendo a sua parte ao inaugurar, neste dia 28, um moderno laboratório de biotecnologia que colocará a produção pesqueira em um novo patamar científico e industrial. Obviamente, nunca será mais rico do que São Paulo, mas também não será mais pobre que o Piauí.

