Difícil de entender Brasília de Vorcaro, Mendonça e Moraes
Por Raimundo Borges
O Imparcial – A bombástica crise do Supremo Tribunal Federal entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça espalha estilhaços na Praça dos Três Poderes, com potencial para atingir a campanha presidencial, distante apenas 26 dias.
Significa que o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já aparece mancando nas pesquisas desta segunda e terça-feira, em empate matemático com o principal concorrente, Flávio Bolsonaro.
Não é exagero afirmar que o movimento de André Mendonça, nomeado em 2020 ministro da Justiça e depois transferido da Esplanada para o plenário do Supremo Tribunal Federal como “terrivelmente evangélico”, colocou a guerra interna da Corte Suprema no centro da campanha de Flávio Bolsonaro, filho do presidente que o nomeou.
Há um desmonte sem precedente na imagem do STF, cujas consequências estão muito além da compreensão do eleitorado que vai votar no próximo dia 4 de outubro no presidente da República.
O ministro Edson Fachin não encontrou ainda o caminho do apaziguamento, nem o ambiente propício ao arrefecimento que baixe a temperatura da crise.
Ao determinar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrey Rodrigues, Mendonça acrescentou à ordem procedimentos investigativos, criminais e administrativo-disciplinares contra o delegado, na Corregedoria da PF. E escalou o imbróglio para o governo.
O estopim da crise se deu quando Alexandre de Moraes enviou a Fachin um relatório da Inteligência da Polícia Federal com análise crítica sobre decisões e a atuação de Mendonça, principalmente nas operações Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de benefícios previdenciários do INSS, e Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas ao Banco Master.
Por causa dos documentos, Mendonça retirou o sigilo das investigações que apontam relações entre Moraes e Daniel Vorcaro.
Em resposta, Alexandre de Moraes propôs, num documento de 50 páginas ao presidente Edson Fachin, pedido de investigação contra André Mendonça, por improbidade administrativa e abuso de autoridade.
A crise é monumental e sem começo, meio e fim. É tudo novo, inédito e num cenário perigoso.
Ao atingir a campanha eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também já sente o impacto nas pesquisas, em que perde ligeiro espaço para o principal concorrente, Flávio Bolsonaro (PL).
Sem perda de tempo, este usa a crise para atiçar a fogueira dos atritos contra Alexandre de Moraes, sobre o golpe armado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores.
Já o presidente Lula tenta manter a distância da turbulência interna do Judiciário, avaliando um possível desgaste na campanha.
Agora, a crise chega ao governo com o afastamento do chefe da Polícia Federal e do chefe da Inteligência. É tudo muito grave em Brasília.
A mídia conservadora, finalmente, encontrou o personagem que faltava para sacudir a reta final da campanha, algo parecido com a Lava Jato de Sérgio Moro, que mudou o rumo das eleições de 2018 e da história.
André Mendonça está dando o gás que faltava na campanha de Flávio e tinta para reescrever a história do STF, nada parecida com a de seus 135 anos de poder realmente Supremo.
Há de se cobrar explicações de Alexandre de Moraes, na sua relação nada republicana com Vorcaro, assim como também de Mendonça, pela forma como, de repente, se tornou protagonista de um enredo surreal.

