Ultradireita afasta Colômbia do Brasil e a aproxima dos EUA
Vários governos felicitaram na segunda-feira (22/06) o empresário Abelardo de la Espriella pela vitória nas eleições presidenciais da Colômbia, realizadas na véspera. A chegada ao comando do movimento de ultradireita Defensores da Pátria implicará uma mudança para a política internacional nas Américas, afastando o país do eixo de governos de esquerda, que inclui o Brasil sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o México de Cláudia Sheinbaum.
Com Espriella no Palácio de Nariño, é muito provável que esse bloco tácito se rompa. As divergências com os Estados Unidos, recorrentes durante o período do atual presidente de esquerda, Gustavo Petro, deverão virar parte do passado.
“Espriella se insere plenamente no grupo de governantes de direita que buscam alinhamento com a política dos Estados Unidos, e a Colômbia entra nesse clube de países próximos a Washington na América Latina”, diz à DW o cientista político francês Yann Basset, professor da Universidade do Rosário, na Colômbia.
Isso significará, acrescenta o especialista, um distanciamento de México, Brasil e Venezuela, ainda que “haja muita incerteza sobre o que vai acontecer com o governo de Caracas”, vizinho da Colômbia.
Alinhamento à direita nas Américas
Durante a campanha eleitoral, pouco se falou de política externa na Colômbia. Mas o futuro presidente já deixou claro que quer explicitamente se alinhar não só aos Estados Unidos, como a Israel e países da direita regional, como a Argentina.
Espriella já “falou em se retirar da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Sistema Interamericano de Direitos Humanos, organizações que têm sido importantes para a Colômbia e para a proteção dos direitos humanos na região”, afirma Rafael Castro Alegría, especialista em relações internacionais e professor da Pontifícia Universidade Javeriana de Cali. “Na minha perspectiva, estas decisões transformariam a Colômbia em pária regional e global.”
A decisão não apenas rompe com a tradição diplomática de manter canais diretos, como também delega o diálogo com um país vizinho a um terceiro Estado, o que pode ser interpretado como uma renúncia parcial à autonomia diplomática.
Em relação ao Brasil, Castro espera mais atritos devido à distância ideológica, mas não uma ruptura total. O peso econômico brasileiro é grande demais.
Uma onda conservadora?
Após as vitórias deJosé Antonio Kast no Chile, de Rodrigo Paz na Bolívia e, possivelmente, de Keiko Fujimori no Peru, o triunfo de Espriella parece confirmar uma guinada à direita na região. Para Basset, no entanto, isso não é tão evidente.
“Desde a chamada ‘guinada à esquerda‘ na América Latina no início do século, acostumamo-nos a pensar em termos de ondas na região. Mas, depois desse momento, cada país seguiu um caminho próprio e cada Estado tem suas especificidades, de modo que não podemos falar de uma situação generalizada.”
Das últimas 15 eleições presidenciais, a direita venceu 12, no que pode ser lido como uma tendência de voto contra governos no poder, o “voto de castigo”, e não necessariamente uma conversão ideológica massiva, ele argumenta.
Outro aspecto, segundo o especialista da Universidade Javeriana de Cali, é que Brasil e México, as principais potências econômicas da região, são governados pela esquerda. Um terceiro ponto é que o Congresso colombiano ficou fragmentado, com forte presença do partido de Iván Cepeda. “Isso relativiza a leitura de um mandato contundente totalmente favorável a Espriella.”

