19 de agosto de 2026
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A crise Brandão/Dino reflete um histórico de 61 anos atrás

Por Raimundo Borges

O Imparcial – A crise política maranhense de 2026, escalada para o Supremo Tribunal Federal e, de lá, para o ventre da campanha eleitoral rumo ao Palácio dos Leões, a menos de 50 dias do pleito, tem ingredientes históricos removidos do distante ano de 1965, quando José Sarney foi eleito governador. Em política, também as aparências enganam, mas não mudam o curso dos fatos. Naquela eleição, depois de uma devassa no TRE-MA que culminou com a eliminação de dois quintos dos títulos eleitorais fraudados, Sarney enfrentou o vitorinismo rachado, com Renato Archer (PTB/PSD) por um lado e o prefeito de São Luís, Costa Rodrigues (PDC), por outro, apoiado pelo governador Newton Bello.

Em 2026, 61 anos depois, José Sarney, com 96 anos, está fora das eleições, mas seu nome ainda faz brilhar o olhar de muitos eleitores, com a candidatura de Roseana Sarney ao Senado. Ela está na chapa liderada por Orleans Brandão (MDB), sobrinho do governador Carlos Brandão, seu principal apoiador. A correlação daquele pleito inicial de Sarney faz sentido hoje, quando se compara a ruptura presente no grupo de Flávio Dino, construído em 2014 com Carlos Brandão para demolir a já velha estrutura do sarneísmo, então com 49 anos. Portanto, a ruptura que o ex-udenista (da UDN) Sarney provocou no vitorinismo tem a feição do racha entre Flávio Dino e Carlos Brandão, culminado em 2026.

Se naquela eleição o candidato Sarney foi vencedor com larga margem, com o apoio do então marechal Castelo Branco, primeiro ditador de 1964, agora Brandão tem o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que investiu pesado em obras sociais e estruturantes no Maranhão. O curioso é que Lula, desde o começo de sua carreira, foi intransigente antiditadura até os dias atuais, mesmo com o país vivendo o período mais longo de democracia plena. No jogo atual da política maranhense, o personagem principal da ruptura é o ex-governador e ministro do STF, Flávio Dino. Ele e Brandão vivem o pior momento da crise, cujo desfecho é totalmente imprevisível sobre o impacto nas eleições.

No meio da crise, encontra-se a candidatura de Orleans Brandão, aparecendo ora liderando as pesquisas, ora em empate técnico contra o primo Eduardo Braide (PSD). Correndo em faixa própria, o vice-governador Felipe Camarão, do PT, tenta conduzir seu projeto, que era para ser do grupo, ora estrangulado. Como a campanha eleitoral está só começando, tudo o que vier a acontecer ficará por conta da imprevisibilidade que habita os labirintos da política e dos interesses em jogo. Em 2022, quando Camarão surgiu na chapa de Brandão, já ocupando o cargo de titular, ele foi indicado por Flávio Dino, até então líder do grupo de 2014.

Em quatro anos, Brandão foi eleito governador e Flávio Dino, senador, ministro da Justiça do governo Lula e, depois, conduzido ao STF. Como o poder não se acomoda em acordo nem entre países, imagine dentro de um grupo político num estado marcado por uma longa história de oligarquias políticas, adaptadas inicialmente ao meio rural e depois aos centros urbanos. Em pleno século 21, o Maranhão não se livrou da grandiosa pobreza extrema, porque o poder oligárquico é perverso na concentração da riqueza, atravessa a linha do tempo e está fincado em cada município, com seus vícios copiados na origem estadual.

A crise de hoje tem nome e sobrenome. Tem roteiro, desdobramentos em decisões judiciais num enredo de suspense, onde transitam espiões, antagonistas, mocinhos e vilões. Se é difícil de entender até para os personagens, muito pior para os eleitores que vão escolher o próximo ocupante do Palácio dos Leões. Carlos Brandão tem a caneta e o Diário Oficial; Flávio Dino tem a reluzente toga do STF e, em tese, a última palavra escrita na intrincada crise que o Maranhão há muito tempo não assistia. Os dois que desmontaram a longeva oligarquia sarneísta não conseguiram ir além de três eleições com o dinismo/brandonismo. Ficou uma cópia retocada do enredo “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, sobre a posse de Sarney em 1965.

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