12 de junho de 2024
DestaquesGeral

Controle de abrigos e desinteresse do PCC: quais são e como atuam as facções do RS?

BBC News – No auge da crise humanitária causada pelas enchentes no Rio Grande do Sul, abrigos emergenciais foram erguidos nas cidades de Guaíba e Canoas, ambas na região metropolitana da capital gaúcha e chegaram a alojar cerca de 5 mil pessoas.

Mas entre as famílias que deixaram suas casas e histórias para trás em busca de socorro também haveria membros de facções criminosas.

Pessoas que trabalham na linha de frente de abrigos na região metropolitana de Porto Alegre relataram à BBC News Brasil que facções chegaram a fazer divisões físicas nos abrigos e a escolher locais estratégicos para alocar seus membros.

“Eles ainda ordenaram quais salas pertenciam a determinados grupos e pessoas”, disse um dos envolvidos nos trabalhos nos abrigos, que pediu para não ser identificado.

Esse comportamento de criminosos nos abrigos reflete o poder das facções nas comunidades, diz o sociólogo Rodrigo Azevedo, professor de direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

“Esses grupos dominam esses territórios no cotidiano da vida em situação normal e, evidentemente, vão procurar manter esse domínio nessa situação de abrigamento”, afirma Azevedo.

“Por isso, é importante que haja a presença do poder público, da polícia.”

No entanto, o domínio das facções em abrigos, que incluía o controle de parte da distribuição das doações, durou poucos dias.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, no terceiro dia de crise, a primeira ação foi redistribuir os abrigados em alojamentos menores.

Em vez de um local abrigar 5 mil pessoas de uma vez, os novos imóveis tinham um limite de ocupação para até 120.

A estratégia foi espalhar as pessoas para descentralizar o poder das facções.

Ao mesmo tempo, foram registrados 65 boletins de ocorrência por crimes relacionados às enchentes no Sul. Na maioria dos casos, furtos e roubos.

O secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul, Sandro Caron, reconhece em entrevista à BBC News Brasil que criminosos tiveram mais facilidade para atuar nos primeiros dias da tragédia, porque as forças de segurança estavam empenhadas nos resgates.

“Nos três primeiros dias, a gente teve que escolher. A gente teve que escolher salvar vidas”, diz Caron.

Um relatório do Ministério da Justiça apontou que o Rio Grande do Sul tem 15 facções criminosas atuantes, mas apenas duas delas possuem abrangência Estadual: Bala na Cara e Os Manos.

Azevedo, diz, no entanto, que o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), consideradas as maiores facções do país, não têm interesse em penetrar no Estado.

“Isso ocorre porque o Sul não é uma rota de escoamento da droga produzida na América do Sul para a Europa”, explica o professor.

“Então, para eles, disputar o poder na região Norte e Nordeste é mais interessante, porque ali é um corredor de passagem.”

Azevedo diz, no entanto, que mesmo não estando presentes no Rio Grande do Sul, o CV e o PCC ainda fazem alguns negócios com criminosos da região.

Além dos furtos a residências, foram registrados saques maiores, principalmente em lojas próximas ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Os principais alvos foram lojas de aparelhos eletrônicos, como celulares, e uma de pneus.

Especialistas apontam que esses crimes têm indícios de terem sido planejados por facções criminosas para recuperar parte do prejuízo que elas próprias sofreram com as enchentes.

Caron, porém, diz que essas ações foram cometidas por quadrilhas especializadas não ligadas às organizações.

“A gente trabalha com o que temos de concreto. Nesse caso, não é uma organização criminosa, mas um grupo especializado”, afirma o secretário.

“Em um ou outro caso mais elaborado, o que nós temos são quadrilhas especializadas em crime contra o patrimônio, como você tem bandos especializados em furto de veículos.”

Violência nos abrigos

Bairro de Santa Rita, na cidade de Guaíba, alagada durante tragédia no RS
Sociólogo diz que facções levaram comando que impõem nas ruas para dentro dos abrigos | GETTY IMAGES

A violência e a criminalidade nos abrigos logo se tornaram uma preocupação em meio à crise.

Pessoas abrigadas ouvidas pela BBC News Brasil, principalmente mulheres, relataram medo de abusos e desconforto por conviver com tantos desconhecidos no mesmo ambiente.

A partir dos registros de crimes, o poder público passou a inaugurar alojamentos exclusivos para mulheres e crianças.

Sandro Caron diz que 54 pessoas foram presas dentro de abrigos por crimes sexuais, agressões, casos de violência doméstica e furto.

“Na imensa maioria dos casos de abuso, o autor do crime era familiar da vítima, e os abusos já ocorriam anteriormente. Só que, quando aconteceram no abrigo, a polícia estava presente, e eles foram presos”, afirma o secretário.

“É um tema muito sensível que as pessoas estão muito preocupadas nos últimos dias em relação aos abrigos. Porque você pega centenas de pessoas de perfis diferentes, de pensamentos diferentes, que não se conhecem e coloca no mesmo lugar.”

Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra um casal sendo hostilizado e expulso de um abrigo após supostamente terem feito sexo próximo a crianças.

Há ainda relatos de que pessoas abrigadas levaram objetos furtados para guardar dentro de abrigos.

No auge da crise, algumas pessoas que estavam ilhadas em áreas alagadas e alojadas em abrigos disseram à reportagem ter ficado em casa por medo de terem seus objetos que restaram furtados.

Também afirmaram ter sido ameaçadas por membros de organizações criminosas a não deixarem suas casas.

O delegado Fernando Sodré, chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, diz à BBC News Brasil não ter ouvido relatos de que essas ameaças teriam acontecido.

“Isso é lenda urbana porque não tem nada, absolutamente nada, nesse sentido”, afirma Sodré.

O secretário da Segurança Pública diz ter ouvido de muitas pessoas que os índices criminais aumentariam nas primeiras semanas após o início da crise.

“Isso não aconteceu. Nós tivemos nos primeiros 20 dias de maio, uma redução de 44% nas ocorrências de homicídios quando comparado ao mesmo período do ano passado. Tivemos uma redução de 60% de roubos”, afirma.

Os Manos e Bala na Cara

Água cobre parte do muro de casa alagada com os dizeres "Deus é bom"
Chefe da Polícia Civil do RS diz que suposta ordem de facções para população não deixar casas durante alagamentos é ‘lenda urbana’ | CRÉDITO,FELIPE SOUZA/ BBC

Segundo Rodrigo Azevedo, a primeira facção que surgiu no sistema prisional da capital gaúcha foi o grupo Os Manos, na década de 1980. Eles logo ganharam força e cresceram para cidades da região, como Canoas e Guaíba.

Ele conta que, no início dos anos 2010, foi criada a facção Bala na Cara, que passou a ter uma presença muito forte na região metropolitana de Porto Alegre.

Ela ficou conhecida pela forma como cometia seus crimes e matava seus desafetos, tudo com muita crueldade e filmado para divulgação.

Incomodados com tamanho crescimento, grupos menores se uniram e criaram em 2017 os Anti Bala. A intenção era eliminar os membros do Bala na Cara.

“O ápice desses conflitos foi em 2017, quando a taxa de homicídios subiu muito aqui no Estado, especialmente em Porto Alegre. Mas de lá para cá houve uma acomodação. Os Bala na Cara mantiveram seus territórios. Os outros grupos também conseguiram se estruturar de alguma forma”, diz Azevedo.

“Os Manos não entraram muito nessa briga direta porque preferiram ficar com esse domínio na Grande Porto Alegre e também com ramificações para o interior do Estado.”

Queda e reestruturação das facções

A tragédia que alagou centenas de cidades no Rio Grande do Sul não escolheu seus alvos e também causou um forte golpe nas facções criminosas, segundo os especialistas ouvidos pela BBC.

Duas fontes relataram à reportagem ter conhecimento que locais onde eram armazenados armamentos e drogas dessas facções foram atingidos pelas enchentes e causaram grandes prejuízos para o crime.

O secretário da Segurança Pública do Estado diz que a polícia também aproveitou a situação para fazer operações, principalmente em Porto Alegre.

“Nessas tratativas dos criminosos de removerem armamentos e drogas, fizemos várias prisões e apreensões. A gente tem um trabalho permanentemente de inteligência e estamos sempre alguns passos à frente”, diz Caron.

Após as perdas do crime organizado, os especialistas preveem uma onda de roubos e furtos para compensar o prejuízo causado pelas enchentes.

Azevedo acredita que alguns dos crimes já registrados durante a crise também podem ter ligação com facções criminosas.

Em regiões mais pobres, diz ele, o crime organizado não tem tanto dinheiro e deve executar ações menores, principalmente de roubo e furto, para compensar o que perdeu.

“Isso pode explicar um pouco esses delitos de menor proporção estarem vinculados de alguma forma a esses grupos”, afirma.

Caron afirma que a polícia também avalia que isso pode ocorrer e diz que está seguindo o exemplo de outros países que viveram tragédias semelhantes.

A intenção é sufocar as facções para evitar uma escalada de crimes, principalmente contra o patrimônio, após as enchentes.

“Toda vez que tu vê algum tipo de problema de redução de empregos, isso impacta na redução da economia. Tendo em conta isso, é claro que a gente vai ter um foco nos crimes contra o patrimônio”, diz o secretário.

“Em áreas atingidas que a inteligência identificar um aumento desses crimes, vamos reforçar nosso policiamento.”

O secretário também diz que dará uma atenção especial às “cidades temporárias” para onde devem ser levadas provisoriamente parte das pessoas atingidas pelos alagamentos.

Serão construídos nestas áreas instalações provisórias para que os desabrigados fiquem ali até se restabelecer.

A preocupação é de que esses novos territórios, por serem em áreas mais afastadas, possam ter uma presença maior do crime organizado e um aumento da criminalidade.

Caron ressalta que suspendeu férias e convocou reservistas durante a crise. Ele assegura que a polícia atuará com força máxima, e pelo tempo necessário, para conter os crimes no Rio Grande do Sul.

“Posso garantir que haverá tolerância zero.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *