Sem transmissão ao vivo pela TV em 1970, os maranhenses sofreram gozação no Piauí
Por Raimundo Borges (com apoio de Neres Pinto – Editor de Esportes de O Imparcial e agências)
O Imparcial – O programa Globo Repórter de sexta-feira, 6, foi um belo passeio pelo México, de onde os apresentadores William Bonner e Sandra Annenberg transitaram pelas cidades de Guadalajara, Monterrey e Jalisco, numa jornada em que conectaram a mistura de saudosismo, tradição, cultura e inovação. O programa deu um passeio pelo país da Copa de 1970, em que o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de forma invicta, vencendo todos os seis jogos sob o comando do técnico Zagallo. Foi o inesquecível elenco lendário que contava com Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Carlos Alberto Torres, numa Seleção que marcou 23 gols e derrotou a Itália por 4 a 1 na grande final, no Estádio Azteca.
Dentro de uma semana, portanto, 56 anos depois, o México estará como o único país a sediar a Copa do Mundo pela terceira vez, desta vez juntamente com os Estados Unidos e o Canadá. O torneio será o mais tecnológico da história dos esportes mundiais. A Copa do Mundo de 2026, além de ser a maior, com 48 seleções, ante 32 das anteriores, é também a mais tecnológica da história. Pela primeira vez, a competição conta com inovações profundas de inteligência artificial, avatares tridimensionais, drones com câmeras inteligentes, câmeras corporais para os árbitros e até mesmo uma bola de futebol equipada com sensores inteligentes e bateria.

Verdadeiro televizinho
Uma realidade totalmente distante do que havia em 1970. Os maranhenses sequer tiveram o prazer de assistir às transmissões ao vivo pela televisão em São Luís. A Embratel estava em fase de implantação de suas torres de transmissão por micro-ondas e não havia passado de Teresina na direção de São Luís. Os torcedores maranhenses tinham que se contentar com a recepção via rádio, o que, no entanto, não deixava de ser emocionante pela voz dos locutores Fiori Gigliotti (Bandeirantes), Pedro Luiz (Rádio Nacional), Joseval Peixoto (Jovem Pan), Waldir Amaral e Jorge Curi, que dividiam o tempo das partidas na Rádio Globo.
De televisão, o Maranhão tinha a TV Difusora, que fazia a transmissão dos jogos do México em videotape, gravado em rolos de fita magnética e enviado pelos voos da Vasp ou da Varig de madrugada ou no dia seguinte. Ainda por cima, em preto e branco, pois as imagens em cores dos jogos só eram reproduzidas no Brasil para altas autoridades da ditadura militar ou em algumas capitais, de forma restrita. Era uma situação tão constrangedora quanto reveladora do que era o Nordeste, com sua pobreza, a discriminação em razão da seca e o papel de fornecedor de mão de obra para São Paulo, Rio de Janeiro e os estados do Sul.
O trem de passageiros São Luís–Teresina, desativado em 1986, depois de perder importância perante a expansão das rodovias e do transporte rodoviário entre os dois estados vizinhos, foi a salvação dos torcedores maranhenses na Copa do Tricampeonato com a Taça Jules Rimet. Nos dias de jogos da Seleção, o trem chegava a Teresina abarrotado de torcedores de todas as cidades cortadas pela ferrovia. Era uma festa na qual os piauienses colocavam aparelhos de TV em vários pontos da cidade para a plateia local e a interestadual.
Gracejos em faixa
Como o Piauí e o Maranhão sempre alimentaram uma rixa misturada com gozação, piadas e gracejos, os teresinenses estenderam uma enorme faixa na ponte de ferro sobre o Rio Parnaíba, que separa os dois estados: “Maranhenses, bem-vindos ao México!”. Já do lado oposto, na entrada do Piauí, outra faixa era mais explícita: “Bem-vindos a Guadalajara!”. Mesmo assim, ninguém se incomodava com a brincadeira. Aqui também havia gozação sobre os vizinhos passageiros do trem na direção de São Luís. Em quase todo o percurso, a meninada gritava na passagem do trem: “Hê, piauienses comedores de bode. Vêm matar a fome no Maranhão!”.
A Copa de 1970 foi um marco no futebol por consagrar a lendária Seleção Brasileira como a primeira tricampeã mundial, o que garantiu a posse definitiva da Taça Jules Rimet. O torneio também revolucionou o esporte ao introduzir as substituições de jogadores, os cartões e a transmissão televisiva em cores para o mundo. O primeiro cartão amarelo da história foi aplicado pela arbitragem ao soviético Evgeny Lovchev.
Para entender a magia e as inovações trazidas por essa geração brilhante em terras mexicanas, basta lembrar que a Seleção de Zagallo era uma inveja mundial de craques. Contava com um setor ofensivo recheado de camisas 10 de seus respectivos clubes, como Pelé, Rivelino, Gérson, Tostão e Jairzinho. O Brasil venceu absolutamente todos os jogos que disputou, tanto nas Eliminatórias quanto na fase final do Mundial, uma campanha perfeita e inédita até hoje. Outra marca histórica do técnico: Zagallo tornou-se a primeira pessoa a conquistar uma Copa do Mundo tanto como jogador (1958 e 1962) quanto como treinador.

Contrato milionário de Ancelotti
Em 2026, o técnico da Seleção Brasileira masculina, Carlo Ancelotti, é o primeiro estrangeiro na função, com um contrato milionário com a CBF e a missão de conduzir bem o Brasil na Copa do Mundo. Como Zagallo, ele também foi jogador, atuando como meio-campista do Parma, com passagens de destaque por dois gigantes italianos: a Roma (onde conquistou uma Série A e quatro Copas da Itália) e o Milan (onde venceu mais dois campeonatos nacionais e duas Ligas dos Campeões). Ele também defendeu a Seleção Italiana, disputando a Copa do Mundo de 1990.
O contrato de Ancelotti com a CBF é o mais caro do mundo nesta Copa, com um salário de 10 milhões de euros por ano, o que equivale a aproximadamente R$ 5 milhões por mês. Com a renovação oficial, o acordo garante o técnico italiano na Seleção até o ano de 2030. O primeiro acordo, firmado em 2025, permite que o profissional mantenha sua base de observação e planejamento logístico na Europa, facilitando o acompanhamento dos atletas que atuam nos principais campeonatos do mundo.
Uma das curiosidades da Copa de 1970 foi o quase gol de Pelé. O Rei tentou jogadas ousadas que ficaram mundialmente famosas mesmo sem terminar em gol: o chute do meio de campo contra a Tchecoslováquia, a cabeçada defendida pelo goleiro inglês Gordon Banks e o “drible da vaca” contra o uruguaio Mazurkiewicz. A semifinal entre Itália e Alemanha Ocidental terminou em 4 a 3 para os italianos na prorrogação. Foi o único jogo na história das Copas a ter cinco gols marcados no tempo extra.
Para entender a magia e as inovações trazidas por essa geração brilhante em terras mexicanas, basta rever as imagens da Seleção do Tri no México. Há 56 anos, elas se tornaram algumas das mais lembradas do nosso futebol em todo o mundo.
Para quem viveu a época, uma novidade tornou tudo ainda mais empolgante: aquela foi a primeira Copa com transmissão ao vivo para o Brasil. Em São Luís, porém, os jogos demoravam pelo menos até o dia seguinte para serem exibidos na televisão. As transmissões internacionais via satélite começaram em 1967, com um programa especial chamado “Our World”, exibido ao vivo para 24 países.

Hoje, a Copa que começa neste sábado, 13, às 19h, para o Brasil contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, Estados Unidos, válida pelo Grupo C, é cercada de tecnologia em todos os aspectos.


