Pastor Zé Barbosa Jr: precisamos falar sério sobre Michelle Bolsonaro
Revista Fórum – A ex-primeira-dama pode estar preparando a direita para a era pós-Bolsonaro, justamente quando a esquerda ainda não definiu quem herdará o legado eleitoral de Lula.
Enquanto parte da esquerda comemora o aparente racha na família Bolsonaro e concentra suas energias no desgaste de Flávio Bolsonaro, talvez esteja olhando para o alvo errado.
Existe um aspecto que merece atenção:
Antes de Michelle Bolsonaro, Jair Bolsonaro disputava o eleitorado evangélico praticamente nas mesmas condições que outros candidatos conservadores. Foi Michelle quem abriu as portas de centenas de igrejas neopentecostais. Foi ela quem transformou a figura do então candidato em alguém visto por milhões de fiéis como um homem “escolhido por Deus”. Seu trabalho junto ao eleitorado feminino foi decisivo para consolidar a enorme vantagem que Bolsonaro passou a ter nesse segmento.
Por isso, quando Michelle declara que permanecerá recolhida, sem participar efetivamente da campanha presidencial do enteado, ela produz um efeito político muito maior do que simplesmente deixar de pedir votos. Ela cria um vazio. Esse vazio poderá ser disputado por diversos atores, inclusive por setores progressistas do mundo evangélico.
Mas existe outra possibilidade, muito menos discutida: E se esse vídeo não marcar apenas um rompimento com Flávio? E se estiver marcando o nascimento de uma liderança própria?
Michelle já não depende exclusivamente do sobrenome Bolsonaro para existir politicamente. Ela preside o PL Mulher, tornou-se uma referência para milhões de mulheres evangélicas e aparece como uma das figuras mais populares da direita entre esse público. Sua eventual eleição ao Senado pelo Distrito Federal é frequentemente apontada como um cenário competitivo pelas pesquisas divulgadas até aqui, embora a eleição ainda esteja distante. Se isso ocorrer, ela conquistará algo fundamental na política: mandato próprio, estrutura institucional e autonomia.
A partir daí, deixa de ser apenas “a esposa de Jair Bolsonaro”. Passa a ser Michelle Bolsonaro. Ou simplesmente Michelle. Esse talvez seja o verdadeiro movimento em curso.
Ao contrário de lideranças masculinas da direita, Michelle fala uma linguagem religiosa muito específica. Ela não é apenas conservadora. Ela comunica pertencimento. Fala como quem compartilha códigos internos do universo neopentecostal. Sua narrativa mistura testemunho pessoal, linguagem espiritual, guerra cultural e identidade feminina.
Não por acaso, muitos observadores identificam em seu discurso elementos próximos da chamada “Teologia do Domínio” ou “Teoria dos Sete Montes”, corrente que defende a ocupação estratégica das principais esferas da sociedade — política, educação, comunicação, economia, família, artes e religião — por lideranças cristãs. Embora Michelle raramente utilize essa expressão de forma explícita, parte de seu entorno religioso e político dialoga com esse imaginário, bastante difundido em segmentos do evangelicalismo internacional.
Também não parece coincidência que ela venha sendo assessorada por especialistas em comunicação política e liderança cristã, como a coach internacional Obii Pax Harry, incorporando técnicas modernas de construção de imagem que unem emoção, símbolos religiosos e marketing digital.
Nesse cenário, a disputa deixa de ser apenas eleitoral. Passa a ser uma disputa de liderança espiritual. É justamente aí que outro personagem entra na história.
Durante anos, Silas Malafaia ocupou o papel de principal voz pública do bolsonarismo evangélico. Mas lideranças religiosas também disputam espaço. Michelle oferece algo que Malafaia não pode oferecer: representa o feminino, a maternidade, o sofrimento, o cuidado e a espiritualidade cotidiana, atributos com forte ressonância entre mulheres evangélicas. Malafaia sabe que pode perder seu capital político, o que talvez explique sua rápida manifestação a favor de Flávio: Malafaia está umbilicalmente ligado ao bolsonarismo.
Ao mesmo tempo, ela parece aproximar-se de lideranças religiosas com perfil menos confrontador publicamente, como Josué Valandro Júnior, seu pastor, e de figuras políticas femininas como Damares Alves, compondo uma direita religiosa capaz de dialogar com públicos mais amplos sem abandonar sua identidade conservadora.
Isso pode representar uma transformação importante da extrema direita brasileira. O bolsonarismo nasceu extremamente masculino, militarizado e personalista.
Michelle aponta para algo diferente: uma direita religiosa mais afetiva, mais feminina na linguagem, mais disciplinada na comunicação e menos dependente da personalidade explosiva de Jair Bolsonaro.
Há ainda um fator que torna esse cenário especialmente relevante. Em 2030, muito provavelmente, a esquerda enfrentará sua primeira eleição presidencial sem Luiz Inácio Lula da Silva como candidato, encerrando um ciclo de mais de três décadas em que seu maior líder serviu como eixo de gravidade do campo progressista. Embora existam quadros importantes em diferentes partidos, nenhum deles demonstra, até o momento, reunir simultaneamente o reconhecimento nacional, a capacidade de mobilização popular e o carisma eleitoral de Lula.
Michelle parece compreender essa janela de oportunidade. Ao fortalecer uma identidade política que dialoga diretamente com o eleitorado evangélico, especialmente o feminino, ela pode estar construindo um projeto que transcenda a condição de “esposa do ex-presidente” e a própria marca Bolsonaro. Se conseguir consolidar um mandato no Senado, ampliar sua autonomia política e apresentar-se como uma liderança capaz de unir conservadorismo, religiosidade e uma imagem pública menos beligerante do que a de Jair Bolsonaro, poderá chegar a 2030 ocupando um espaço para o qual, hoje, não existe um adversário claramente consolidado no campo progressista.
Isso não significa que sua ascensão seja inevitável, mas que ela representa uma hipótese estratégica que a esquerda faria bem em levar a sério desde já. É cedo para afirmar que esse projeto resultará numa candidatura presidencial ou mesmo numa ruptura com Bolsonaro. Não há evidências públicas suficientes para sustentar essas hipóteses. Mas seria um erro estratégico ignorar que Michelle pode estar construindo um patrimônio político próprio, com capacidade de influenciar os rumos da direita para além da figura do ex-presidente.
Para os setores democráticos e para quem acompanha a relação entre religião e política, a principal pergunta talvez não seja quem vencerá a eleição de 2026, a pergunta é quem estará em condições de liderar a direita em 2030.
A esquerda já sabe enfrentar Jair Bolsonaro. Mas ainda não demonstrou que compreendeu Michelle Bolsonaro.
E talvez seja justamente aí que esteja o maior desafio dos próximos anos.
* Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor, licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas

