As crises políticas e as controvérsias que incendeiam as eleições no MA
Por Raimundo Borges
O Imparcial – o atravessar por cima do artigo 5º, inciso 14, da Constituição de 1988, o ministro Flávio Dino não deixa espaço para outra interpretação: na crise política deste ano no Maranhão, passou também pelo consagrado direito do jornalista de preservar suas fontes, quando a informação se impõe como de interesse público e tiver relação com o exercício profissional. Como marcou sua passagem pela Justiça Federal com atuação destemida e alta taxa de respeitabilidade na função que alcançou sendo aprovado em primeiro lugar no concurso nacional, Dino, hoje, está no centro de uma polêmica que ultrapassa as divisas do Maranhão e gera controvérsias jurídicas na origem e no formato em que é apresentada ao público.
Dino colocou em prisão domiciliar o delegado federal aposentado Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança do Maranhão e ex-deputado estadual, eleito em 2014 pelo mesmo PCdoB que o colocou no Palácio dos Leões. Cutrim é acusado pela Polícia Federal de ser a fonte das informações do blogueiro Luís Pablo, autor de matérias sobre o uso de um carro blindado do TJMA por familiares de Dino, que as classifica como perseguição deliberada e clandestina, a mando de adversários políticos. Esse é parte de um enredo jurídico-político, marcado por um assassinato, acusações de corrupção, propina e ações que transitam em três gabinetes de ministros do STF e tiraram o presidente do TCE do cargo.
O desfecho desse imbróglio desaba na campanha eleitoral de 2026, como extensão da ruptura no grupo Flávio Dino/Carlos Brandão, ocorrida em 2023 e agravada agora, a 44 dias da eleição e há 20 anos de outro racha, no Grupo Sarney, liderado por José Reinaldo no Palácio dos Leões. Ele rompeu com Roseana Sarney, de quem foi vice em 2002 e, em 2006, apoiou Edson Vidigal, ex-presidente do STF, ao governo do Maranhão pela coligação PSB-PT-PCdoB-BRB-PMN, contra Roseana Sarney (PFL), Jackson Lago (PDT), Aderson Lago (PSDB) e outros. Jackson, três vezes eleito prefeito de São Luís, virou o jogo no segundo turno e venceu Roseana, apoiado por Zé Reinaldo. Foi a primeira derrota do grupo Sarney em 41 anos.
Agora, 20 anos depois daquele episódio marcante na política do Maranhão, quando Reinaldo tentou construir o reinaldismo, apoiando Jackson à frente do Palácio dos Leões, o barco emborcou de novo. Em 2006, Vidigal se aposentou do cargo de presidente do STJ para disputar o governo, e Flávio Dino renunciou à toga de juiz federal para concorrer a uma vaga de deputado federal, também apoiado pelo governador José Reinaldo, originário do Grupo Sarney. Vidigal recebeu 14% dos votos e abandonou a política; Dino se elegeu com 124 mil votos, atrás de Roberto Rocha, Sarney Filho e Carlos Brandão. Jackson foi cassado pelo TSE em 2009 e perdeu em 2010 para Roseana.
Daquele movimento ‘reinaldista’, ocorrido há 20 anos, José Reinaldo é secretário de Projetos Estratégicos do Governo Carlos Brandão, enquanto Flávio Dino fez o caminho inverso. Depois de dois mandatos de governador, deixou Brandão nos Leões em 2022; e, em 2023, abandonou o Senado com apenas 22 dias de mandato para voltar ao Judiciário, agora como ministro do STF. Tentou continuar liderando a política estadual, mas Brandão deu para trás e decidiu apoiar o sobrinho Orleans à sua sucessão. A ruptura acabou definitiva. Nem Lula da Silva conseguiu reatar aquela aliança de três eleições consecutivas e vitoriosas.
Em 2006, José Reinaldo rompeu com Roseana e não com José Sarney, mas projetou Dino para o que ocorreu em 2014, quando ele venceu Edinho Lobão (MDB) em 194 municípios, contra 23. O que vai acontecer em 4 de outubro está por conta da imprevisibilidade. Em estudo próprio, o ex-deputado sarneísta Gastão Vieira, ex-ministro do Turismo de Dilma Rousseff e hoje filiado ao PT, diz que Flávio Dino não surgiu politicamente em 2014, mas, sim, da ruptura de 2006, dentro do processo que reorganizara as forças políticas e criara as condições para a mudança ocorrida oito anos depois e que, agora, em 2026, o grupo dinista/brandonista vive a pior crise do Maranhão. Tudo na mais perfeita desordem da dinâmica política.

