
Política faz enriquecer acima de quaisquer investimentos
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Para ter R$ 1 milhão, juntando tudo o que ganha na conta bancária ou debaixo do colchão, um trabalhador que recebe o salário mínimo precisaria de 47,5 anos, incluindo o 13º salário, sem gastar nada. Porém, políticos que estão em campanha eleitoral sabem de todas as artimanhas para pedir voto, mas nenhum ensina como se faz para multiplicar o patrimônio, como eles fazem entre uma eleição e outra. O imaginário popular leva o eleitor a achar que todo político é rico ou entra na política para enriquecer. O noticiário atual no Brasil mostra que não se trata de imaginar, mas de provar que essa percepção é real. E não é só no Brasil que a política é uma fonte de enriquecimento como nenhuma forma de investimento.
O livro “Os ben$ que os políticos fazem”, da Editora Leya, do jornalista Chico Góes, é de 2013, mas está tão atual como se fosse deste ano. Reúne histórias de dez parlamentares de várias regiões do país que amealharam, de forma suspeita, segundo denúncias formalizadas, muito mais de R$ 1 milhão entre uma campanha eleitoral e outra. Góes analisou aproximadamente dez mil declarações de bens de candidatos à Justiça Eleitoral e fez um corte numérico para chegar aos que multiplicaram suas posses em milhões de reais entre uma campanha e outra. Os deputados e senadores já milionários foram deixados à parte. Mas três filhos de políticos, na faixa dos 20 anos, que superaram a riqueza dos pais, estão incluídos.
Pela lei, as declarações obrigatórias de bens dos candidatos ao TSE ficam abertas no sistema a quem quiser acessá-las. Se, por um lado, é uma boa regra de transparência, por outro, parece até perigoso, pois alguns aumentaram tanto seu patrimônio que isso pode gerar incentivos perversos e motivações bastante escusas para quem entrar na política. Entre os candidatos presidenciáveis, Lula declarou agora R$ 4,7 milhões, 35,7% a menos que em 2022 (R$ 7,42 milhões). E Flávio Bolsonaro (PL) tem R$ 8,2 milhões, um crescimento robusto de 370% em relação aos R$ 1,7 milhão declarados em 2018.

Em termos porcentuais, alguns outros candidatos que mais aumentaram seus bens foram Nikolas Ferreira (PL, +10.488%), Tarcísio Motta (Psol, +2.337%), Paulo Pimenta (PT, +870%), Chico Alencar (Psol, +399%) e João Roma (PL, +298%). Mas também houve quem perdeu patrimônio, como Weverton Rocha (PDT, -45,8%) e Ciro Gomes (PDT, -42%). No entanto, em termos absolutos, a situação muda muito: alguns têm patrimônio de milhões de reais; outros, de poucos milhares de reais. Políticos em primeiro mandato também fazem a diferença em posses. Erika Hilton (PSOL-SP) declarou R$ 15 mil em 2026, contra R$ 20 mil em 2022, mas diz que suas joias e roupas de grife valem mais de R$ 200 mil.
Na alçada do STF, nove deputados federais são investigados pela PF por terem ampliado, em conjunto, o patrimônio em R$ 33,9 milhões entre 2022 e 2026, com base nas informações dadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há suspeita de desvios de emendas e cotas parlamentares, além de irregularidades nas licitações sobre os empenhos direcionados desse dinheiro público. Mostra que o maior crescimento foi o do deputado Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE), cujos bens aumentaram R$ 13,3 milhões no período. Entre eles estão dois maranhenses: Juscelino Filho (União Brasil) e Gil Porto (PL).
Entre os investigados, inclusive em operações da Polícia Federal, como a Odoacro, Juscelino Filho, ex-ministro das Comunicações, apresentou a menor variação nominal entre os nomes destacados pelo levantamento do portal UOL: R$ 163,4 mil. Já o pastor Gil Pastor Gil e o colega Josimar do Maranhãozinho foram condenados, em março, pela 1ª Turma do STF em ação penal relacionada a desvio de emendas. A decisão ainda está sujeita a recursos e não transitou em julgado. Vale lembrar a frase bem atual: “Aplaudir político por fazer obra com dinheiro público é como aplaudir caixa eletrônico por entregar o seu próprio dinheiro”.

