20 de julho de 2024
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Chico Buarque, um escritor tão grande quanto o compositor?

Revista Fórum – A discussão estéril se contrapõe aos inúmeros prêmios vencidos com seus livros, entre eles dois Jabutis e o Camões, uma das maiores honrarias da literatura lusófona.

Chico Buarque chega aos 80 anos como o maior artista vivo do Brasil. A despeito dos seus um metro e setenta e poucos, não muito mais que isso, dá pra arriscar a frase sem medo. Se, como compositor popular, tem lá seus pares, como Milton Nascimento e Caetano Veloso, ficam ainda suas várias outros facetas, sobretudo a de escritor.

Chico diz que, se for pra levar a ferro e a fogo, é muito mais escritor do que compositor. Leu e estudou literatura, línguas e assuntos afins muito mais do que música, matéria em que se considera um quase diletante. E que diletante.

Certa vez, conta ele, dando uma entrevista em algum país do Norte da Europa, o repórter ficou espantado ao saber que, além de escritor, ele é um músico, cantor e compositor, muito conhecido no Brasil. Espantado, o jornalista perguntava: “mas você compõe e canta?”

Seus livros são, de fato, traduzidos para várias línguas e ganharam inúmeros prêmios. Entre eles, dois primeiros lugares no Jabuti, além de um segundo e outro terceiro lugar. Venceu também o Prêmio Camões, uma honraria instituída em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal para estreitar os laços culturais entre os países lusófonos.

O então presidente Jair Bolsonaro se negou a entregar o prêmio pra Chico. O escritor agradeceu e declarou publicamente que seria uma desonra receber o Camões das mãos do extremista de direita. Após ser eleito, o presidente Lula fez questão de reparar a desfeita e entregar o prêmio a Chico.

Ao contrário do que muitos imaginam, Chico Buarque escritor não é uma invenção recente em sua carreira. O autor publica romances e peças desde 1967, quando escreveu o espetáculo teatral “Roda Viva”, encenado no ano seguinte por Zé Celso de Martinez Corrêa. Desde então, foram inúmeros títulos, entre eles “Fazenda Modelo”, “Estorvo”, “Benjamin”, “Budapeste”, “A Ópera do Malandro”, entre muitos outros.

Filho do celebrado Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim, Chico misturou, de fato, as duas vertentes em sua vida. A escrita e a paixão pela literatura foi uma forma, segundo já contou em inúmeras entrevistas, de se aproximar do mundo do pai.

Sérgio, autor de clássicos, entre outros “Raízes do Brasil”, vivia fechado em sua biblioteca quase impenetrável. As inúmeras recomendações de clássicos que formaram o jovem compositor e escritor vieram de lá, segundo diz.

No Brasil, ao contrário de no resto do mundo, Chico é, vez ou outra criticado como escritor. É comum se ouvir a frase de que na literatura ele não é o mesmo craque que sempre foi como compositor. Pode ser que sim, pode ser que não.

A impressão que fica mesmo é que este é muito mais um movimento que vem de fora do que o contrário. O Brasil transborda em escritores geniais, enquanto entre compositores, há poucos, muito poucos, talvez nenhum como Chico Buarque. Isto, no entanto, não desmerece nem um lado e nem o outro do artista.

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